Até meados do século XVIII, Belém era praticamente uma vila: "Era uma pequena cidade sem palácios, sem solares. As casas baixas, de beirais salientes, caiadas de branco, imitavam as construções mais modestas e tradicionais de Portugal. Na arquitetura religiosa só havia um grande monumento dos jesuítas: a Igreja barroca de Santo Alexandre e o Colégio ao seu lado (...). Os outros templos, exceto a Igreja da Sé, em início de obras, apresentavam estrutura precária, que vinha do século anterior - o século da fundação de Belém - ou de sucessivas reformas. Esteios de madeira, cobertura de palha, paredes de taipa", escreveu o jornalista paraense Leandro Tocantins (1919-2004) em seu artigo "Landi- Um italiano Luso-tropicalizado" (Revista Brasileira de Cultura, MEC, Rio de Janeiro, 1969). Os habitantes, inclusive os governadores e capitães da província, viviam em casas ameaçadas de desabamento.
O artista italiano Giuseppe Antonio Landi (1713-1791), que chegou ao Brasil em 1753, foi o responsável pela transformação da cidade. Ele foi procurado pelo governo português em sua cidade natal, Bolonha, para vir à colônia ajudar a estabelecer as fronteiras entre terras portuguesas e espanholas, determinadas pelo Tratado de Madri, assinado em 1750. Landi viajou para Lisboa, onde ficou dois anos, e de lá seguiu para Belém. O arquiteto trabalhou por seis anos em Barcelos, no rio Negro, e depois se estabeleceu na capital do Estado do Grão-Pará e Maranhão.
Em Barcelos, Landi se tornou amigo do capitão-general Francisco Xavier de Mendonça Furtado (1701-1769), irmão do Marquês de Pombal (1699-1782) e governador geral do Grão Pará e Maranhão entre 1751 e 1759. Essa amizade lhe valeu o pedido para fazer um projeto arquitetônico para a residência dos governadores, que funcionava até então em uma casa de taipa e pilão, quase em ruínas, no centro de Belém. Após uma vistoria, o estado precário da construção levou à encomenda de um novo palácio que deveria ser simples, mas acabou, depois de muitas modificações no projeto, feitas pelo próprio Landi, se tornando de grandes proporções.
A construção começou em 1768 e a inauguração se deu em 1772. Os desenhos que retratam o edifício, de Joaquim José Codina (século XVIII-1790), foram feitos durante a expedição Viagem Filosófica, do brasileiro Alexandre Ferreira (1756-1815), realizada entre 1783 e 1792. Ferreira, que veio ao Brasil enviado pelo Real Gabinete de História Natural do Museu da Ajuda de Lisboa, sob o reinado de Maria I, com o objetivo de informar a coroa sobre o que se passava na região Amazônica, ficou hospedado no novo palácio e escreveu sobre ele em seu relatório para a corte. "O compartimento da capela fica definido na planta baixa pela marcação da mesa do altar, localizada à frente da porta do acesso principal a este ambiente. Esta capela foi referida pelo naturalista Alexandre Ferreira, em 1783, como um dos 'oratórios públicos' existentes na cidade e servia para o uso das pessoas residentes no Palácio, ou seja, para a família do governante, que assistiam aos serviços religiosos das tribunas existentes no primeiro andar, às vezes acompanhados por altos funcionários da Capitania e por seus convidados; a capela era aberta algumas vezes ao povo (escravos, índios, soldados e homens livres), que assistia ao serviço religioso no pavimento térreo junto com os servidores do prédio", escreveu a pesquisadora Elna Maria Andersen Trindade, em seu artigo "Palácio e residência dos governadores da capitania do Grão-Pará e Maranhão - O projeto de Landi" (Artistas e Artífices e sua Mobilidade no Mundo de Expressão Portuguesa; coordenação: Natália Marinho Ferreira Alves; CEPESE - Centro de Estudos da População Economia e Sociedade; Porto; 2007). Da referida capela, saiu a primeira romaria do Círio de Nazaré, em 1797.
Codina desenhou a frente e os fundos do palácio (acima), que dava para um jardim. A construção tem 52,80 m de frente por 63,80 m de fundo. Uma das razões alegadas para suas grandes dimensões foi a possibilidade de a família real portuguesa se mudar para lá, o que era um desejo do Marquês de Pombal, mas que nunca se realizou. O edifício passou por reformas depois da proclamação da República e teve seu nome mudado para Palácio Lauro Sodré, em homenagem ao primeiro governador do Estado pós-monarquia. No início do século XX, novas reformas deixaram o palácio bastante modificado e o projeto de Landi, descaracterizado. No entanto, em 1971, foi restaurado pelo IPHAN, voltou à sua forma original e foi tombado em 1974, abrigando hoje o Museu do Estado do Pará.
"O Palácio de Landi, considerado a principal obra de arquitetura civil do artista bolonhês, é a reafirmação do poder Real, no processo de colonização pombalina, e a mais nobre instalação político-administrativa da colônia portuguesa na América (...). Atualmente, mesmo com o crescimento da cidade, tomado por proporções metropolitanas, as linhas monumentais deste Palácio ainda se sobrepõem a todas as manifestações arquitetônicas de sua época na área do Centro Histórico de Belém do Pará", escreveu Trindade no artigo citado.