Joaquim Lopes de Barros Cabral Teive (1816-1863), desenhista, pintor, cenógrafo e caricaturista brasileiro, foi aluno da primeira turma da Academia Imperial de Belas Artes (Aiba), onde estudou com os professores franceses Jean-Baptiste Debret (1768-1848), pintura, e Grandjean de Montigny (1776-1850), arquitetura. Participou da primeira mostra de professores e alunos da instituição, em 1829, apresentando cópias de desenhos e pinturas de seus mestres. Cabral Teive não se destacou como pintor, apesar de ter chegado a dar aulas de desenho, em 1850, e de pintura histórica, em 1857, na Aiba, sob protestos do diretor da instituição na época, o gaúcho Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879).
Antes de se tornar professor, Teive criou, com seu amigo Frederico Guilherme Briggs (1813-1870), o álbum de tipos brasileiros que se tornaria referência para muitos artistas que vieram depois. Os dois nasceram no Rio de Janeiro, estudaram juntos na Aiba e enfrentaram resistência para dar aulas na instituição. Briggs concorreu, em 1831, ao primeiro concurso para preencher a vaga de professor substituto da cátedra de paisagem, mas foi preterido pelo alemão Augusto Müller (1815-1883). Para os jovens artistas brasileiros, a Aiba dava preferência ao estrangeiros.
Briggs montou, no final da década de 1830, sua casa litográfica, onde publicou gravuras de diversos tipos, e popularizou as artes gráficas no Brasil. Cabral Teive trabalhou com ele e juntos publicaram entre 1840 e 1841 uma série de estampas, que viriam a formar o álbum Costumes Brazileiros, assim anunciado no Jornal do Commercio, em 15 de fevereiro de 1840: "Não tendo até aqui sido publicada uma coleção de costumes do país, Frederico Briggs, com litografia na Rua do Ouvidor, n. 130, se propõe a litografar uma coleção de 50 números, saindo cada semana dois números, às terças e sábados; cada número será litografado em bom papel e colorido; formato em quarto de papel de Holanda e bem desenhado. Subscreve-se na litografia de Briggs, rua do Ouvidor, n. 130. Preço da assinatura pelos 50 números 6 rs. Avulso 160 rs. Terça-feira 18 do corrente sairá à luz o primeiro número; representa um oficial e soldado da Guarda Nacional de caçadores". Cabral Teive assinou os desenhos como Lopes. As cinquenta litogravuras coloridas que compõem o álbum podem ser vistas aqui na Brasiliana Iconográfica.
Apesar de a primeira estampa retratar dois homens brancos (acima), como era a maioria dos oficiais, mais da metade delas têm como protagonistas homens e mulheres escravizados que dominavam as ruas do Rio de Janeiro exercendo as mais diversas atividades profissionais. Embora os desenhos não contextualizem a cidade, com as figuras sempre soltas num espaço indefinido, o conjunto expõe os diferentes trabalhos que eram delegados aos escravizados nas ruas, além daqueles dentro das casas e nas lavouras. Muitos se dedicavam ao comércio de gêneros alimentícios, como carne, galinhas, caldo de cana, doces, hortaliças, mas também cuidavam de caiar casas, remover o lixo, acender as lamparinas, carregar café e pessoas, e atuavam como barbeiros e cirurgiões.
Os artistas brasileiros incluíram no álbum de costumes homens escravizados sendo castigados, como as gravuras Pretos no libambo, palavra de origem africana que denota a corda ou corrente usada para prender as pessoas pelo pescoço, ou a Preto ao cepo, pedaço de madeira acorrentado ao pé.
"As estampas de tipos de rua da Litografia Briggs tampouco pertencem àquele gênero de retrato, ornado por uma bela moldura, destinado a ser exibido nos salões da Academia Imperial de Belas Artes ou nas paredes de luxuosos palacetes. Não há ali retratos da 'boa sociedade', embora estes também tenham sido impressos em sua oficina (...). As figuras representadas nessas pequeninas estampas, não frequentando salões de arte nem residências aristocráticas, só podiam ser encontradas nas ruas, becos, travessas, fontes, chafarizes e portas de igreja da cidade. Foram retratadas para serem multiplicadas às dezenas, em folhas avulsas e em pequenos álbuns destinados à circulação pública e à apropriação descompromissada, embora também pudessem servir a estudos e relatos de viagem. Por isto mesmo, essas estampas são registros que categorizam os indivíduos, procurando documentá-los a partir de seus gestos, atitudes, roupas, atributos e ocupações. A linguagem dos corpos e as diferenciações de gênero, origem ou atividade são realçadas, numa época em que a imagem fotográfica ainda não era uma realidade capaz de fazê-lo", escreveu a pesquisadora Maria Inez Turazzi, em seu artigo "A representação de tipos e cenas do Brasil imperial pela Litografia Briggs" (In caiana. Revista de Historia del Arte y Cultura Visual del Centro Argentino de Investigadores de Arte. Número 3, 2013).