Monte Alegre é hoje um município no Estado do Pará, localizado na margem esquerda do rio Amazonas, com pouco mais de 60 mil habitantes. Entre 1783 e 1792, tempo que durou sua viagem pelo Pará, Amazonas e Mato Grosso, o naturalista brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815) passou por ali. A expedição, conhecida como Viagem Filosófica, foi programada pelo Real Gabinete de História Natural do Museu da Ajuda de Lisboa, sob o reinado de Maria I, com o objetivo de informar a Coroa sobre o que se passava nessa parte do Brasil e ajudar a fixar a colonização nessas regiões mais remotas.
"A matéria, de que as índias fazem as cuias, é o fruto da árvore que elas chamam Cuiainha, e os portugueses, Cuieira. A Cuieira quase todo o ano dá fruto; gasta dois meses para amadurecer, que é quando o recolhem. (...) Do fabrico das cuias e do das redes, é que se vestem a maior parte das índias de Monte Alegre. Far-se-ão na Vila, por todo o ano, de 5.000 até 6.000 cuias. Há casa que faz 500. Vende-se cada uma na Vila a 100 e 120 réis, conforme o tamanho, a pintura, a qualidade, se é lisa ou de gomos. Fora da Vila duas cuias são reputadas por um paneiro de farinha, e uma cuia por uma galinha", escreveu o naturalista em seu manuscrito, em 4 de fevereiro de 1786, quando se encontrava em Barcelos, a primeira capital da província do Amazonas, publicado em Viagem Filosófica pelas capitanias do Grão Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá (Conselho Federal de Cultura, 1974). Ferreira descreve em detalhes a árvore (abaixo) e o processo de fabricação das cuias pintadas: como as mulheres cortavam e limpavam o fruto, colocavam para secar e selavam a cuia, utilizada como prato, copo, travessa em suas habitações, e também vendidas na região e para a Europa.
A pintura de cuias é até hoje uma atividade econômica importante em Monte Alegre e seus cidadãos são conhecidos como "pintacuia". As imagens produzidas pelos desenhistas da expedição de Ferreira são as primeiras a mostrar a Vila de Monte Alegre para a Europa. Mas, antes dele, outros viajantes já haviam escrito sobre ela: "Provavelmente, o relato mais antigo sobre Monte Alegre foi escrito em 1639 pelo Frei Cristóvão de Acuña, que acompanhou a expedição de Pedro Teixeira pelo rio Amazonas desde o Maranhão até Quito, atual capital do Equador. Nessa época, Monte Alegre ainda era chamada Gurupatuba. Acuña fala de supostas riquezas minerais da região, como a prata, menciona uma serra que exala cheiro de enxofre e um fenômeno de luzes que ocorre em noites claras em uma serra chamada Paraguaxo. Alguns anos depois, o capitão Maurício de Heriarte passou por Monte Alegre e comentou que nessa região há grandes serras, fartura de peixes e vários povos indígenas", informa o livro Monte Alegre: uma história de longa duração, escrito por Edithe Pereira, Cristiana Barreto, Anne Rapp Py-Daniel, Claide de Paula Moraes, Karl Arenz e Hannah Nascimento. (Belém : Museu Paraense Emílio Goeldi, 2018).
Monte Alegre atraiu também outros naturalistas, como o inglês Alfred Russel Wallace (1823-1913) que, entre 1848 e 1850, percorreu a região e anunciou ao mundo algo que os moradores dali já sabiam: a existência de uma série de pinturas rupestres em grutas e paredões na área que hoje corresponde ao Parque Estadual Monte Alegre. "Depois de muito procurar pelas pinturas, o grupo topou com um paredão com desenhos de jacarés, pássaros, círculos e motivos abstratos feitos a mais de dois metros de altura com pigmento vermelho. Algumas figuras tinham meio metro de altura", escreveu o jornalista Bernardo Esteves, sobre o primeiro contato que o grupo de Wallace teve com as pinturas, em seu livro Admirável novo mundo - Uma história da ocupação humana nas Américas (São Paulo: Companhia das Letras, 2023). A idade das pinturas só foi determinada mais de um século depois com escavações e datação de carbono promovidas por agências norte-americanas em pesquisas encabeçadas por Anna Roosevelt, bisneta do presidente dos Estados Unidos, nos anos 1990.
Com presença humana comprovada há cerca de 13 mil anos, a Caverna da Pedra Pintada, em Monte Alegre, continua a ser estudada. Em 2014, a arqueóloga Edithe Pereira, do Museu Paraense Emílio Goeldi, e o arqueólogo Claide Moraes, da Universidade Federal do Oeste do Pará, retomaram as escavações no local e coletaram novas amostras. "Para Moraes, a riqueza dos vestígios escavados em Monte Alegre é mais um prego na caixão da ideia de que a floresta seria um obstáculo para a vida de povos caçadores-coletores. 'A Amazônia sempre foi um lugar atrativo, e temos um certificado de 13 mil anos de idade dizendo que isso é possível', afirmou", escreve o jornalista no livro citado.