Há 200 anos, o Senado brasileiro fez sua primeira sessão, que contou com a presença do imperador D. Pedro I (1798-1834), apesar de ter sido criado dois anos antes, em 1824, por decisão do mesmo imperador. Desavenças sobre o seu funcionamento causaram a demora para o início de suas atividades. Os primeiros senadores, escolhidos por D. Pedro a partir de listas enviadas pelos governos das províncias, deviam ter 40 anos ou mais, terem nascido no Brasil e possuírem uma renda anual superior a 800 mil réis. Então, em 1826, cinquenta homens brancos e ricos começaram sua carreira no Senado, exercendo um cargo que era garantido como vitalício.
Esses representantes da elite brasileira da época, fazendeiros, proprietários de pessoas escravizadas, militares, religiosos, advogados e médicos, eram em sua maioria também marqueses, viscondes, condes, e alinhados com a dinastia de Bragança, a família do imperador. A população, desde o início, olhou com desconfiança para os membros do senado.
Como costuma acontecer até hoje, as regras não foram seguidas à risca. Se todos os senadores deveriam ser ricos e fiéis à Coroa, encontrá-los nascidos no Brasil não era tão fácil. Entre os ministros retratados pelo pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848) na gravura acima, o único apresentado como senador (no canto inferior à direita) é o sacerdote José Caetano da Silva Coutinho (1768-1833), conhecido como Bispo Capelão-Mor, natural de Caldas da Rainha, em Portugal. O sacerdote e senador era muito próximo da família real e coube a ele inaugurar a Capela Real e Imperial, coroar D. Pedro I e batizar D. Pedro II (1825-1891), entre outros serviços religiosos. Também aparece na gravura de Debret (no canto inferior à esquerda), o advogado José Clemente Pereira (1787-1854), natural da cidade de Trancoso, em Portugal, que chegou ao Brasil em 1815, onde exerceu os cargos de deputado, ministro e senador. O único brasileiro nato na gravura acima é José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838), nascido em Santos, São Paulo, ministro do Império e administrador do Rio de Janeiro, conhecido como o patriarca da Independência, e que não exerceu o cargo de senador.
O senado funcionava no Campo de Santana, também chamado de Campo da Aclamação, em um palacete construído em 1819 como residência de Marcos Noronha de Brito (1771-1828), o Conde dos Arcos. O imóvel ficou desocupado entre 1821, quando o conde voltou para Portugal, e 1824, quando foi iniciada a reforma para transformar a residência em sede do senado. A grande sala se tornou o plenário e os quartos, os gabinetes. A inauguração do edifício em sua nova função ocorreu no mesmo dia da primeira sessão, 6 de maio de 1826, e o senado funcionou ali por 98 anos, até sua mudança, em 1925, para o Palácio Monroe, também no centro do Rio de Janeiro.
Durante o período da Regência, entre 1831 quando D. Pedro I abdicou para voltar a Portugal e garantir o trono daquele país, e 1840, quando foi antecipada a maioridade de D. Pedro II, aos 14 anos, para que pudesse tomar posse do trono do império do Brasil, os senadores tiveram bastante trabalho, até porque muitos assumiram os cargos de regentes.
A maior dificuldade foi assegurar a unidade do Império quando diversas revoltas se espalharam pelo país. A mais longa, a revolução Farroupilha, de 1835 a 1845, liderada por proprietários rurais do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, reivindicava mais autonomia das províncias e impostos menores. No Pará, a Cabanagem foi uma revolução popular que durou de 1835 a 1840, liderada por indígenas, escravizados, negros libertos e pessoas sem recursos que viviam em cabanas às margens dos rios e protestavam contra o abandono pelo governo central e os privilégios de comerciantes portugueses após a Independência. A Balaiada, revolução popular que teve início no Maranhão e se estendeu pelo Piauí e Ceará, entre 1838 e 1841, eclodiu devido à crise econômica decorrente da queda nas vendas do algodão maranhense, que perdeu mercado para os Estados Unidos, e à fome que se instalou na região, além dos abusos cometidos por grandes proprietários de terras e autoridades locais. E na Bahia, a Revolta dos Malês, em janeiro de 1835, exigia o fim da escravidão e da imposição da religião católica, dois interesses da Corte que o senado jurara defender desde sua criação.
Com apoio do poder econômico e das armas, o Senado procurou manter intactos os valores da corte com seus membros vitalícios cada vez mais velhos e que, mesmo doentes, não podiam pedir demissão. A ordem natural da vida forçou a substituição de vários senadores, ainda indicados pelo imperador, agora D. Pedro II. Em 1889, o senado dividido assistiu ao fim da escravidão. Somente após a proclamação da República, com a Constituição de 1891, o mandato dos senadores deixou de ser vitalício e passou a ser de nove anos.