"É principalmente nas praças em torno dos chafarizes, lugares de reunião habitual dos escravos, que muitas vezes um deles inspirados pela saudade da mãe-pátria recorda algum canto. Ao ouvir a voz desse compatriota, os outros, repentinamente entusiasmados, se aglomeram em torno do cantor e acompanham cada estrofe com um refrão nacional ou simplesmente um grito determinado (...). Quase sempre esse canto que os eletriza se acompanha de uma pantomina improvisada ou variada sucessivamente pelos espectadores que desejam figurar no centro do círculo formado em torno do músico. (...) Os mais indiferentes contentam-se com marcar o compasso por meio de uma batida de mãos de dois tempos rápidos e um lento. Os instrumentistas, também improvisados, e sempre numerosos, trazem na verdade unicamente cacos de pratos, pedaços de ferro, conchas, pedras ou mesmo latas, pedaços de madeira etc." Em seu livro Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, publicado em fascículos na França entre 1834 e 1839, o pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848) descreve assim o que hoje poderíamos chamar de uma roda de samba. Embora naquela época o ritmo não fosse exatamente o mesmo, a música como forma de lazer e expressão da criatividade era. Quando Debret esteve no Brasil, entre 1816 e 1831, os batuques, como eram chamadas as reuniões de pessoas negras com canto e dança, e também o lundu, introduzido no país provavelmente pelos escravizados trazidos de Angola, dominavam as pausas no trabalho forçado.

Há muitas controvérsias sobre a origem do lundu. "Confundido inicialmente com o batuque africano (do qual proveio), tachado de indecente e lascivo nos documentos oficiais que proibiam sua apresentação nas ruas e teatros, o lundu em fins do século XVIII não era ainda uma dança brasileira, mas uma dança africana do Brasil. Segundo Mozart de Araújo, é a partir de 1780 que o lundu começa a ser mencionado nos documentos históricos. Até então, era dada a denominação de batuque aos folguedos dos negros. Enquanto dança, a coreografia do lundu foi descrita como tendo certa influência espanhola pelo alteamento dos braços e estalar dos dedos, semelhante ao uso de castanholas, com a peculiaridade da umbigada. Traço característico e predominante em sua evolução seria o acompanhamento marcado por palmas, num canto de estrofe-refrão típico da cultura africana. Quando a umbigada passa a se disfarçar como simples mesura, o lundu ensaia sua entrada nos salões da sociedade colonial", informa o Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

Marchand de tabac / L´aveugle chanteur / Marchande de pandelos

"Os negros de Benguela de Angola devem ser citados como os mais musicistas e são principalmente notáveis pelos instrumentos que fabricam: a marimba, a viola de Angola, espécie de lira de quatro cordas; o violão, que é um coco atravessado por um bastonete que serve de cabo e no qual se amarra uma única corda de latão presa a uma cravelha e da qual, pela pressão alternada do dedo, tiram sons variados com uma espécie de arco pequeno; e finalmente o urucungo", prossegue o pintor francês. Urucungo é o nome africano, original, do berimbau, tocado por um cego acompanhado por um homem que toca marimba, também um instrumento de origem africana, na gravura acima, do livro de Debret.

Danse de Nègres Musiciens jouant les instruments de leur pays

Na pintura, intitulada Dança de músicos negros tocando os instrumentos de seu país (acima), do pintor abolicionista dinamarquês Paul Harro-Harring (1798-1870), que esteve no Brasil em 1840, há um grupo que canta e dança enquanto um homem toca um violão do tipo descrito por Debret e outro, a marimba, instrumento muito popular na primeira metade do século XIX, mas que foi perdendo espaço para outros tipos de percussão à medida que os "batuques" assimilaram novas sonoridades.

 

Playing the Marimba