Por pressão do Império Britânico, a Coroa portuguesa se propôs a abolir progressivamente o tráfico de africanos no Atlântico. Depois da independência, a partir de 1830, o comércio de pessoas passou a ser tratado como pirataria, mas nem por isso cessou. Ao contrário, a onda conservadora, que se instalou no Império a partir de 1837 e apoiava os interesses dos fazendeiros de café, ignorou a lei de 1831 que declarava livres todos os escravizados vindos de fora do Império e impunha penas aos traficantes. Até a promulgação da lei Eusébio de Queirós em 4 de setembro de 1850, o tráfico de escravizados se manteve ativo com aparência de legalidade.
“Estima-se, segundo os dados do The Trans-Atlantic Slave Trade Database, que 74 mil africanos tenham desembarcado entre Campos e Macaé entre 1836 e 1850, configurando a maior zona de recepção negreira no Brasil no período da clandestinidade. Cumpre salientar que cerca de 60% da população de Campos dos Goytacazes, entre os anos de 1836 e 1850, era composta de escravizados. O contingente de 38 mil cativos, em 1850, aproximava-se dos 39 mil cativos existentes, naquele mesmo ano, nos municípios de Valença e Vassouras juntos. Esses números indicam que os principais complexos agrários fluminenses rivalizavam na demanda por africanos durante a ilegalidade”, escreveram os historiadores Walter Luiz Carneiro de Mattos Pereira e Thiago Campos Pessoa no artigo “Silêncios atlânticos: sujeitos e lugares praieiros no tráfico ilegal de africanos para o sudeste brasileiro (c.1830 - c.1860)” (Revista Estudos Históricos. Rio de Janeiro, jan.-abr. 2019).
O escritor e pintor dinamarquês Paul Harro-Harring (1798-1870), que esteve no Brasil pela primeira vez em 1840, enviado pelo jornal inglês abolicionista The African Colonizer, registrou em imagens a condição dos escravizados. A pintura acima mostra um barco com pessoas africanas se dirigindo à ilha de Santana, próxima a Macaé, no litoral norte fluminense, onde existia um porto clandestino. Apesar de esses ancoradouros estarem espalhados por toda a costa brasileira, a região sudeste era a mais equipada devido à proximidade das fazendas de café que dominavam a economia e a política na época. O Senado fazia vista grossa enquanto os ingleses tentavam fiscalizar esse comércio.
O diplomata inglês Hamilton Charles Hamilton, que atuou no Brasil entre 1836 e 1846, empreendeu fiscalizações no litoral e relatou às autoridades. “O ofício do embaixador inglês lembrava ao governo brasileiro que 39 navios negreiros haviam desembarcado naquele litoral entre novembro de 1842 e abril de 1843. Sete chegaram em Santos, cinco em São Sebastião, quatro em Ilha Grande, sendo um deles na praia de Dois Rios. Ao todo, em cinco meses, 16 tumbeiros finalizaram sua travessia em praias específicas entre as baías de Santos e Ilha Grande. O movimento do tráfico ilegal, no entanto, era mais intenso no norte fluminense. Naquele litoral quatro navios atracaram em Cabo Frio, três em Barra de São João, oito em Macaé e outros oito em Manguinhos, próximo à divisa com a província do Espírito Santo, totalizando 23 navios negreiros. (...) Considerando que cada navio carregasse 450 prisioneiros, a diplomacia inglesa estimava em cerca de 17.550 o número de indivíduos desembarcados no litoral compreendido entre o norte fluminense e as praias de Santos entre novembro de 1842 e abril de 1843”, escreveu o historiador Thiago Campos Pessoa, no artigo “Os últimos portos negreiros do Império - Memória e história do contrabando de gentes em meados do Oitocentos” (Revista Acervo, Rio de Janeiro, v. 38, n. 2, maio/ago. 2025).
A região de Campos de Goytacazes (acima) e São João da Barra era dominada por dois fazendeiros: André Gonçalves da Graça e Joaquim Thomaz de Faria, ambos comendadores da Ordem da Rosa e da Ordem de Cristo. Graça foi vice-presidente da Câmara Municipal de São João da Barra e Faria, delegado de polícia, patrão-mor do porto e presidente da Câmara. Graça chegou a ser capturado e acusado de tráfico transatlântico, mas as relações políticas de ambos os livraram de problemas maiores. Além de fazendas, possuíam ilhas, praias, embarcações, estaleiros, engenhos, trapiches e barracões, onde preparavam os africanos trazidos ilegalmente para serem absorvidos em suas plantações de café e cana ou vendidos para propriedades nas proximidades, como Campos e São Fidélis, no norte fluminense, ou mais distantes como Espírito Santo e Minas Gerais.
Não era apenas nos portos mais distantes da capital que o tráfico ocorria com a conivência das autoridades imperiais. As praias de Niterói, como Imbuí, Jurujuba e Praia Grande (acima), também eram utilizadas para o desembarque de pessoas africanas trazidas na ilegalidade desde meados dos anos 1830. “Podemos inferir que os desembarques, ainda que tenham se afastado das praias próximas à Corte, com a desarticulação da estrutura do Valongo, mantiveram-se em seus arredores. Exemplo disso está no alerta do presidente da província fluminense, Aureliano de Souza e Oliveira Coutinho, que, em março de 1848, comunicava às autoridades locais o desembarque de 900 africanos fora da barra do Rio de Janeiro, entre as fortalezas de São João e a praia Vermelha, a menos de 10 quilômetros do Paço Imperial”, escreveram os historiadores Pereira e Pessoa no artigo citado.