O pintor e litógrafo francês Joseph Alfred Martinet (1821-1875) chegou ao Rio de Janeiro em 1841, época em que muitos artistas decidiram tentar a sorte no Brasil atraídos pelos incentivos de D. Pedro II (1825-1891) e da Academia Imperial de Belas Artes. "A Coroação de d. Pedro II certamente insuflou na capital da corte uma série de promessas de progressos. Algumas oficinas litográficas foram abertas na cidade, proporcionando que os veículos impressos começassem a incluir ilustrações (...). Do lado da Academia das Belas Artes, seu diretor Félix-Émile Taunay realizava inovações nos métodos de ensino e na recepção das artes, promovendo a valorização do artista e ampliando seu espaço de atuação na sociedade. A ampliação das exposições para todos os artistas seria uma maneira de reverter este processo e convertia-se, igualmente, em uma forma de atuação dos artistas estrangeiros que se estabeleciam aos montes no Rio de Janeiro", escreveu a pesquisadora Elaine Dias no artigo "Artistas franceses no Brasil: descrição e promoção de sua imagem na imprensa do século XIX" (MODOS. Revista de História da Arte. Campinas, v. 3, n. 2, mai. 2019).
Como era costume, Martinet recorreu a anúncios em jornais para se tornar conhecido por aqui. Três meses após sua chegada, publicou no Jornal do Commercio: "M. Alfred Martinet, artista retratista, oferece o seu préstimo às pessoas que se dignarem honra-lo com sua confiança, ficando elas persuadidas de antemão que no seu trabalho acharão todos os elementos que constituem o artista. Ele empreende também diversos quadros, como paisagens, vistas de cidades e outras, e responde pelo seu zelo e exatidão dos seus quadros".
Martinet vinha de uma família reconhecida de litógrafos e chegou da França já com a técnica bastante apurada. Ele teria frequentado e aprimorado seus estudos artísticos no Museu do Louvre, em 1836. Aqui no Brasil passou a trabalhar na casa litográfica de Heaton & Rensburg, fundada em 1840 pelo inglês George Mathias Heaton (1804-1855?) e o holandês Eduard Rensburg (1817-1898), responsáveis pela impressão de gravuras avulsas, álbuns, partituras, estampas para revistas e outros serviços.
Em 1845, o artista publicou o Panorama da baía do Rio de Janeiro (acima) que também foi anunciado no Jornal do Commercio: "Em seis quadros, de 12 a 18 polegadas, tomada dos navios de guerra, executado pelo mais hábil artista em lithographia o Sr. Martinet, e a marinha pelo distinto oficial de marinha Lieut. Warre, estampado pelos Srs. Heaton e Rensburg, e publicado por G. Leuzinger, rua do Ouvidor, n.36, ha de sair à luz em fins de abril ou maio. O preço da subscrição é de 12$ rs., e depois se venderá a 15$ rs. As duas primeiras estampas acham-se para se examinar encaixilhadas na rua do Ouvidor, n.36". Havia grande procura por essas gravuras vendidas pelos jornais.
Martinet, então já estabelecido e bem relacionado, publica em 1847 o álbum O Brazil Pittoresco, Historico e Monumental, na editora dos irmãos Eduardo e Henrique Laemmert, dedicado a D. Pedro II com litografias de paisagens e monumentos cariocas. Para o historiador Gilberto Ferrez (1908-2000), que reproduziu a litografia Praia de Botafogo em 1846 em seu livro A muito leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro (1965), Martinet foi "o melhor litógrafo que trabalhou por aqui". Ferrez afirma no livro citado que as litografias Rio de Janeiro. Cattete, entrada da Barra (acima) e Rio de Janeiro. Do lado da terra, Morro de Senado (abaixo) são os primeiros panoramas feitos a partir de daguerreótipos, mas que nas duas gravuras os desenhos em primeiro plano foram feitos por Martinet.
Versátil, o francês também pintou e vendeu retratos de pessoas importantes da corte e fez as litografias que acompanhavam as partituras de composições para piano em homenagem a bairros do Rio de Janeiro, como Botafogo, Glória, Jardim Botânico, São Cristóvão e Tijuca, publicadas no Álbum Pitoresco-Musical, em 1856. A partir de 1864, o artista, que continuava a dar aulas em sua residência, passou a oferecer também "registros de santos", imagens religiosas de grande formato que tinham muita procura, eram encomendadas pelas igrejas e vendidas aos devotos.
Realizou ainda as litografias do Combate Naval de Riachuelo (1871), com desenho do ilustrador Angelo Agostini (1843-1910), e a de Passagem do Curuzú (1866), desenho do pintor italiano Edoardo de Martino (1838-1912), as duas referentes à Guerra do Paraguai.
Martinet publicou seu último anúncio em que oferecia aulas no Almanaque Laemmert de 1871, com seu endereço na rua da Ajuda, 106, no centro da cidade. Consta que tenha morrido na França, em 1875, mas uma nota curiosa publicada no Jornal do Commercio, em 23 de maio de 1877, levanta suspeitas sobre essa informação. Registrada no livro Artistas franceses no Rio de Janeiro (1840-1884). Das Exposições Gerais da Academia Imperial de Belas Artes aos ateliês privados. Fontes primárias, bibliográficas e visuais (org. DIAS, Elaine. Guarulhos: EFLCH-UNIFESP, 2020), a nota informa: "Alfred Martinet, pintor, queixou-se à policia que estando ontem ao meio-dia em sua chácara à rua da Braça de Ouro, ouvindo gritos, foi verificar e achou sua mulher altercando com uma vizinha. Intervindo para apazigua-las, apareceu um individuo, cujo nome ignora, que deu-lhe uma cacetada no ombro esquerdo. Esta ocorrência teve por princípio uma duvida sobre umas galinhas. O Dr. 2o delegado mandou proceder a corpo de delito no ofendido". A rua Braça de Ouro chama-se atualmente Ferreira Pontes e fica no bairro do Andaraí, na zona norte do Rio de Janeiro.