Se pensarmos que os pintores viajantes atuaram no Brasil como "repórteres", retratando para a Europa as paisagens, a fauna, a flora e os costumes dos habitantes do então chamado Novo Mundo, podemos considerar que o italiano Edoardo de Martino (1838-1912) se destacou no país como correspondente de guerra. Mas não só isso.

Oficial da Marinha italiana e pintor, De Martino estudou na Escola Naval de Nápoles, onde adquiriu conhecimentos sobre desenho. Em 1866, vem para a América do Sul para integrar a Divisão Naval Italiana que se encontrava na região do Rio da Prata, a bordo do navio “Ércole”, que sofre um acidente. Martino passa um período estudando pintura em Montevidéu, Uruguai, e no ano seguinte se desliga de sua carreira militar para se dedicar à arte. Muda-se para o Rio de Janeiro em 1868 e, através de contatos com oficiais da Marinha brasileira, acaba conhecendo Dom Pedro II (1825-1891), que o nomeia pintor oficial para retratar a Guerra do Paraguai (1864-1870). Sua proximidade com o imperador brasileiro costuma ser também atribuída ao fato de Martino ser napolitano, como a imperatriz Teresa Cristina (1922-1889).

Fato é que o italiano vai ao front e, a bordo do navio Lima Barros, observa a guerra e registra desenhos (abaixo) que serviriam de base para suas telas. Nesses desenhos, é possível observar o esforço para detalhar o gestual e a expressão dos combatentes, que se tornam menos perceptíveis nas telas realizadas depois.

O italiano pintou mais de 300 telas nos cerca de sete anos em que esteve no Brasil. Muitas delas hoje pertencentes ao Museu Histórico Nacional do Rio de Janeiro, ao Museu Naval e Oceanográfico, a coleções particulares dentro e fora do país, além de outros museus, como estas duas que fazem parte do acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo (abaixo).

Couraçado São Paulo (atribuído)
Praia de Botafogo (atribuído)

Com suas pinturas, De Martino contribuiu também para formar a memória e a identidade da Marinha brasileira, retratando várias embarcações e vistas marítimas. Sua experiência como oficial da Marinha o ajudou muito nos detalhes com que pintava os barcos e as cenas marítimas. De Martino costuma ser elogiado pelo movimento com que retrata os barcos e o mar, como nos desenhos abaixo, pertencentes ao acervo do Instituto Moreira Salles.

De volta ao Rio de Janeiro, De Martino participou das Exposições Gerais da Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro de 1870, 1872 e 1873. Em 1871, foi eleito membro correspondente da Academia e fez várias telas por encomenda. Seus trabalhos foram sempre muito bem recebidos na época e suas vendas superaram as de seus contemporâneos, como os brasileiros Victor Meirelles (1832-1903) e Pedro Américo (1843-1905), que também retrataram a Guerra do Paraguai.

Mesmo bem-sucedido e casado com uma brasileira, Edoardo de Martino se mudou para a Inglaterra no ano de 1875, onde teve três filhos e uma carreira ainda mais próspera do que no Brasil. Lá, foi nomeado pintor da corte pela rainha Vitória, em 1895. Faleceu em Londres, em 1912.