A palavra francesa "boutique", que vem do grego antigo apotheke, designava um estabelecimento comercial com porta para a rua, que podia ser um armazém, uma loja de tecidos ou até uma farmácia. O conceito de butique como uma loja de roupas e ligado à moda e à sofisticação só foi se impor na França e no Brasil em meados do século XX. O artista francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848) esteve no Brasil entre 1817 e 1831, após a chegada da corte portuguesa e o restabelecimento das relações comerciais e diplomáticas entre seu país e Portugal, e testemunhou o aumento populacional e o surgimento de novas formas de comércio e abastecimento no Rio de Janeiro. Naquela época, já havia por aqui algumas lojas de tecidos, modistas, armarinhos, mas as butiques brasileiras que figuram na obra Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil são uma sapataria, uma padaria, uma barbearia, um armazém especializado em carne seca, um açougue de carne de porco e o mercado do Valongo, onde pessoas escravizadas eram vendidas.

Boutique de Cordonnier

Debret fez, além das ilustrações, comentários sobre essas butiques que chamaram sua atenção. Sobre a sapataria, o artista afirma: "O europeu que chegasse no Brasil em 1816 mal poderia acreditar, diante do número considerável de sapatarias, todas cheias de operários, que esse gênero de indústria se pudesse manter numa cidade em que os cinco sextos da população andam descalços". A explicação dada pelo artista é que o calçamento das ruas, e a falta dele, estragavam rapidamente os sapatos, em geral feitos de seda. "Mas logo que o Rio se tornou a capital do Reino, aí se instalaram sapateiros e boteiros alemães e franceses, abastecidos com excelentes couros da Europa; como era de se esperar, os trabalhadores negros ou mulatos empregados nessas sapatarias logo se tornaram rivais de seus amos e hoje se encontra, nas lojas desses indivíduos de cor, toda espécie de calçados perfeitamente confeccionados", acrescenta Debret. Ao descrever a cena desenhada (acima), o artista diz que o sapateiro português castiga seu ajudante com uma palmatória, diante dos dois outros ajudantes que provavelmente são castigados também, observados pela mulher do português, "mulata" que "não resiste ao prazer de espiar o castigo".

Boutique de boulanger

Para Debret, as butiques de padeiro também teriam florescido no Brasil depois da coroação de D. João VI, em 1818, com a chegada de estrangeiros, principalmente os franceses. Até 1816, diz Debret, "existiam no Rio de Janeiro somente seis padarias" e "a profissão de padeiro era uma indústria de luxo no Brasil", porque a mandioca se sobressaía diante da farinha de trigo, artigo importado e pouco usado. Assim como na sapataria, vemos na padaria (acima) um proprietário branco e negros trabalhando, descascando o trigo. Entre os compradores, um menino "de uma casa rica acaba de encher um saco com uma provisão de pão para seus senhores, enquanto um moleque e uma negra compram o pãozinho de vintém indispensável para o almoço".

Le chirurgien nègre / Boutique d´un marchand de viande de porc

"De todos os armazéns da cidade, o do açougueiro de carne de porco é o mais repugnante, tanto pelo cheiro enjoativo que exala como pela banha espalhada por todos os lados, até mesmo nos batentes das portas", escreveu Debret sobre a imagem acima. A carne de porco sempre foi muito apreciada e consumida no Brasil, os animais vinham "em grande parte da província de São Paulo, principalmente da comarca de Curitiba" e as entregas eram feitas duas vezes ao dia. Assim como a venda da carne de porco, a de carne seca, outro produto largamente consumido, chamou a atenção do artista francês. Na imagem abaixo, ele destaca a fisionomia do comerciante português sentado à porta: "Pela sua lividez, verifica-se a influência malsã do ar corrompido do armazém, mais particularmente sensível durante à noite no pequeno sótão em que dorme".

Boutique de carne secca

"A questão sanitária e o higienismo urbano surgem já com a vinda da corte em 1808 a partir do diagnóstico médico que deveria descobrir o 'quadro clínico' da capital e os motivos da insalubridade que a assolava. Junto aos pântanos, ao ar parado, aos enterros nas igrejas e aos escravos doentes, estava a manipulação de gêneros alimentícios e o acúmulo de lixo e dejetos como os considerados principais problemas sanitários da cidade", escreveu o pesquisador Fernando Vieira de Freitas, em seu artigo "As negras quitandeiras no Rio de Janeiro do século XIX pré-republicano: modernização urbana e conflito em torno do pequeno comércio de rua" (Tempos Históricos, Volume 20, Paraná, 2016). O transporte e manuseio dos alimentos era uma preocupação para o governo, mas somente em 1830 foi criado o primeiro Código de Posturas da cidade que tentava estabelecer parâmetros para a ordem urbana, o que incluía o comércio e distribuição de comestíveis. Debret também dedicou muitas ilustrações de sua obra ao comércio de rua, das quitandeiras e dos ambulantes, que sofriam perseguições, mas seguiam trabalhando por persistência e necessidade dos que vendiam e dos que consumiam.

Les barbiers ambulants / Boutique de barbiers

Também pela grande demanda, os barbeiros negros dominaram esse mercado no Rio de Janeiro, atuando nas ruas ou em pequenos estabelecimentos, como mostra a gravura (acima) de Debret. Segundo o artista francês, os "fígaros nômades" ocupavam o último degrau na hierarquia dos barbeiros. Já os que trabalhavam nas butiques, inspiradas nas espanholas, ganhavam a confiança do cliente europeu "certo de aí encontrar numa mesma pessoa um barbeiro hábil, um cabeleireiro exímio, um cirurgião familiarizado com o bisturi e um destro aplicador de sanguessugas". Apesar de reconhecer a destreza desses homens, Debret depois discorre sobre os poucos cabeleireiros franceses instalados no Rio de Janeiro, que, mais sofisticados em sua visão, atendiam as elites.

Boutique de la Rue du Val-Longo

Nessa seleção de butiques que o artista incluiu em sua obra, publicada na França entre 1834 e 1839, a butique da rua do Valongo (acima), "o bazar onde se vendem homens", diz Debret, se destaca pelo volume de recursos que reunia, já que os escravizados vendidos ali faziam funcionar toda a economia. "O Rio de Janeiro transformou-se na cidade do capital mercantil, dos negociantes de grosso trato, importadores e exportadores e traficantes de escravizados (...). Salvador e Recife foram relevantes portos do tráfico negreiro, mas não atingiram a importância em volume e fluxo da praça do Rio de Janeiro, que perdurou por todo o século XIX. Os negociantes de grosso trato e suas famílias ocupariam o topo da hierarquia econômica e política por longo período até a abolição do tráfico negreiro, em 1850, e a ascensão da elite cafeeira, dos “barões do café” do Vale do Paraíba. (...) Foram as famílias fluminenses ligadas ao comércio de exportação e de importação, em especial ao tráfico negreiro, que se incumbiram de recepcionar e financiar a família real e os súditos vindos ao refúgio tropical. (...) Ganharam não somente mercês. Talvez, a principal dádiva recebida de d. João VI, de d. Pedro I e de d. Pedro II tenha sido a política de 'vistas grossas', que propiciou a continuidade do tráfico de escravos", escreveu a pesquisadora Maria Alice Rosa Ribeiro em seu artigo "Comércio interno e manufaturas nos tempos da Independência do Brasil" (Revista USP, n° 132, São Paulo, 2022).