Jacinta Rodrigues Aires (1715-1768), nascida no Rio de Janeiro, lutou para conseguir estabelecer no Brasil o primeiro convento feminino de Carmelitas Descalças, dedicado à santa espanhola Teresa D'Ávila. Ela deixou a casa de seus pais em 1742 e recolheu-se na Chácara da Bica, na rua de Matacavalos, determinada a se dedicar à vida religiosa. Sua irmã mais nova, Francisca, tomou a mesma decisão um dia depois. Com a ajuda do tio, o Capitão-Mor Manuel Pereira Ramos (1681-1756), que contribuiu com a compra do terreno, as duas se instalaram na chácara até então abandonada e construíram a capela do Menino Deus, que ainda existe no local, na atual rua do Riachuelo. As irmãs fundaram ali um convento informal que começou a atrair outras jovens a partir de 1748. Elas viviam sob as regras monásticas das carmelitas e consta que ajudaram a carregar pedras durante a construção. Bem relacionada, Jacinta, que ficou conhecida como Jacinta de São José, recorreu ao então governador Gomes Freire de Andrade (1685-1763), o Conde de Bobadela, que, impressionado pela devoção da moça, mandou iniciar a construção de um convento próximo ao local, no até então nomeado morro do Desterro e que viria a se chamar morro de Santa Teresa.
O convento começou a ser construído em 1750 e o autor do projeto foi o engenheiro militar português José Fernandes Pinto Alpoim (1700-1765), também responsável por outras obras como o Aqueduto da Carioca e a Casa dos Governadores (atual Paço Imperial). Alguns anos depois, as jovens começaram a morar no convento que era considerado um "recolhimento", local não oficializado pela igreja mas que recebia jovens de boas famílias, as beatas ou as que se preparavam para casar. Jacinta de São José era a regente desse recolhimento, que só foi transformado em convento muitos anos depois.
"Se houve apoio, amizade e colaboração de Gomes Freire de Andrade, governador da capitania fluminense (1733-1763), oposições e contratempos foram opostos por D. Fr. Antônio do Desterro Malheiros (1746-1773), prelado diocesano do Rio de Janeiro. Tais como a denúncia que apresentou contra Jacinta à Inquisição de Lisboa entre 1752 e 1754", escreveu a historiadora Scheyla Taveira da Silva em sua tese "Mulheres, vida religiosa e poderes locais: disputas em torno da fundação do Convento de Santa Teresa (Rio de Janeiro, 1742-1782)" (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, , Rio de Janeiro, 2019). Obstinada, Jacinta foi para Lisboa em 1753 para reivindicar o direito de professar a Regra de Santa Teresa, considerada muito estrita pelos responsáveis no Brasil, e se defender das denúncias feitas contra ela que suspeitavam de sua "santidade" e a acusavam de desobediência. "Em Portugal, a Regente foi inquirida pessoalmente pelo padre João Col, da Congregação do Oratório, feita sua defesa e sem impedimentos para voltar ao Brasil, ela retornou em 17 de abril de 1756, portando tanto o Breve Apostólico de Benedito XIV que autorizou a fundação do Convento de Santa Teresa (dado em Roma aos 22 de dezembro de 1755), quanto o Alvará de Dom José I que consentiu com a fundação e ressaltou não caber ao Bispo Diocesano determinar às Recolhidas o instituto que haviam de professar". Quando voltou ao Brasil com a autorização, Jacinta teve mais decepções: o Bispo se recusou a cumpri-lo e seu tio, que a ajudara durante todo o percurso, viria a morrer poucos meses depois.
Segundo a historiadora Leila Mezan Algranti, em seu artigo "Casar ou meter-se freira": opções para a mulher colonial?" (Cadernos Pagu (2) 1994: Departamento de História, IFCH - UNICAMP), "a política metropolitana procurou durante três séculos, dificultar o estabelecimento da vida religiosa feminina no Brasil. (...) Tanto os homens como as mulheres do Ultramar português compartilhavam das representações sobre o ideal de vida feminina próprio da época e buscavam os meios para realizar seus objetivos de criar espaços de reclusão feminina. Em resposta à proibição de conventos e, visando principalmente a preservação da honra de suas mulheres, os colonos construíram os chamados recolhimentos femininos; isto é, instituições leigas, nas quais as mulheres faziam votos simples e adotavam a Regra de uma ordem religiosa, esperando no futuro conseguir o beneplácito real para transformar o estabelecimento num convento professo".
Para Scheyla Taveira da Silva, no artigo citado, Jacinta "constitui um exemplo de mulher que conseguiu cooptar o apoio de seculares e membros da Igreja através da construção de alianças. Seus irmãos, inclusive, foram religiosos que se dedicaram em acompanhar o recolhimento. A proteção de clérigos parentes das Recolhidas colaborou para a manutenção do Recolhimento e sua adequação aos moldes de um mosteiro". Jacinta era chamada de Madre, mas não foi beatificada, canonizada e nem conseguiu realizar a profissão religiosa. Em 1768, "faleceu como Recolhida, condição em que os votos assumidos tinham caráter informal, e se enquadra no modelo de beata comum nos séculos XVII - XVIII".
Somente depois da morte do bispo, em 1774, as ambições de Jacinta tiveram chances de se realizar. Três anos depois, a rainha D. Maria I de Portugal (1734-1816) deu a ordem e as monjas do Convento tiveram sua profissão religiosa em 1781, quando puderam enfim se recolher ao claustro e se dedicar integralmente à doutrina de Santa Teresa.
Desde 1990, o Bloco das Carmelitas percorre as ladeiras de Santa Teresa e divulga uma lenda urbana sobre a freira que teria fugido do convento na sexta-feira e só voltado na terça-feira de Carnaval, os dois dias em que o bloco desfila.