Capitão da artilharia da Marinha francesa e pintor, Adolphe d'Hastrel (1805-1874) esteve no Brasil em 1840, quando voltava de uma missão militar no Rio da Prata, onde permaneceu por cerca de um ano para intervir a favor do Uruguai no conflito com a Argentina, que ficou conhecido como a Grande Guerra (1839-1851). Durante mais de vinte anos, o pintor, gravador e aquarelista, que também esteve na ilha de Reunião e no Senegal, na África, aproveitou suas missões militares para desenhar e pintar paisagens dos lugares por onde passava.
Após sua estadia na América do Sul, publicou na França o Álbum de La Plata o colección de las vistas y costumbres del Río de la Plata, em 1846, e Rio de Janeiro ou Souvenirs du Brésil, em 1847, este último dedicado à princesa de Joinville, Francisca de Bragança (1824-1898), que se casou com o príncipe francês François D'Orleans (1818-1900), em 1843, e era a quarta filha de D. Pedro I (1789-1834) com D. Leopoldina (1797-1826). Em algumas de suas litografias sobre o Rio de Janeiro, D'Hastrel insere nas paisagens urbanas os tipos humanos, em geral negros que, junto com a vegetação às vezes fora de lugar, dão o aspecto pitoresco tão caro aos pintores românticos da primeira metade do século XIX.
Em seu artigo "Vistas e Paisagens: imagens do Rio de Janeiro colonial" (Revista de História 147, Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, USP, São Paulo, 2002), o pesquisador Ronald Raminelli destaca a imagem acima como exemplo de paisagem romântica diferente das primeiras imagens da natureza que visavam documentar, como se fossem mapas, o novo continente. Segundo o pesquisador, uma "(...) belíssima litografia, retratando a igreja da Lapa e o convento de Santa Teresa, além de alguns sobrados. Verificam-se aí algumas alterações da morfologia urbana: o convento está em plano mais baixo e próximo da igreja; o aqueduto, que deveria estar ao lado, desapareceu. No primeiro plano, avista-se uma rua composta de sobrados de dois pavimentos. Na parte superior há um pequeno balcão e uma janela, que não estão em correspondência com o andar térreo, onde se encontram duas janelas grandes como a superior, uma pequena e uma porta. Na parte lateral da igreja, o artista concebeu um muro em ruínas, bem ao gosto pitoresco. (...) nesse quintal há uma densa vegetação, composta de coqueiro, bananeira e uma frondosa árvore. Em frente ao muro, estão vários negros exercendo seus ofícios. Uma mulher com dois tonéis, outra com trouxa sobre a cabeça e uma terceira com o filho nas costas. Os demais personagens parecem conversar. Todos são negros, concebidos como elementos do pitoresco devido à cor e aos hábitos".
Essa liberdade do artista na interpretação da paisagem pode ser observada também na gravura que retrata a Ilha das Cobras (acima). Semelhante à imagem desenhada pelo suíço Johann Jacob Steinmann (1800-1844) uma década antes, a representação de Adolphe d'Hastrel é povoada com trabalhadores nos barcos e em terra que conferem vida e o aspecto pitoresco à paisagem.
O mesmo se pode dizer da gravura do Cais Pharoux, na praia Dom Manuel (acima), onde funcionava o hotel Pharoux, primeira hospedaria de luxo do Rio de Janeiro. Trabalhadores descarregam barcos e pessoas transitam no Largo do Paço, em frente ao hotel, onde foi realizado o primeiro experimento com daguerreótipo (imagem fixada numa placa de cobre) no Brasil. Coincidentemente, Adolphe d'Hastrel, além de pintor e gravurista, também tinha grande interesse e participou das primeiras pesquisas, em Montevideo, no Uruguai, com esse instrumento que foi um dos primeiros processos fotográficos, com seu amigo argentino Florencio Varela (1807-1848) que, mais tarde, entre 1842 e 1843, viria a se instalar no Rio de Janeiro, exercendo essa profissão. De volta à França, D'Hastrel colaborou com a revista L'Illustration, onde publicou, em 1850, retratos dos defensores de Montevideo, feitos a partir de daguerreótipos.