A expedição do naturalista brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815) pelo Pará, Amazonas e Mato Grosso produziu um imenso material iconográfico, que registra centenas de plantas brasileiras, animais, povos indígenas, utensílios e detalhes de arquitetura e construção naval. A expedição, conhecida como "Viagem Filosófica", foi programada pelo Real Gabinete de História Natural do Museu da Ajuda de Lisboa, sob o reinado de Maria I, com o objetivo de informar a coroa sobre tudo o que se passava nessa parte do Brasil e ajudar, assim, na fixação da colonização nessas regiões mais remotas. A expedição durou nove anos, de 1783 a 1792. Vieram ao Brasil, junto com Ferreira, os desenhistas Joaquim José Codina (séc. XVIII-1790) e Joaquim José Freire (1760-1847), além do jardineiro botânico Agostinho José do Cabo.

Entre as inúmeras ilustrações sobre a flora e a fauna, encontram-se algumas muito curiosas, que retratam a construção de canoas em Belém do Pará e serviram ao relatório Memória sobre a Marinha Interior do Estado do Grão-Pará, escrito por Alexandre Rodrigues Ferreira em 26 de março de 1787 (manuscrito preservado pela Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro). 

Segundo o historiador português Nuno Saldanha, a coroa portuguesa teve nessa época a intenção de estabelecer na região um estaleiro. "(...) Por expediente de 1755, o Governador do Estado, o capitão Francisco Xavier de Mendonça Furtado, solicitou a reorganização da antiga Casa das Canoas (construída em 1729), para a transformar num novo projeto de vulto. A sua ampliação, em 1761, levada a cabo pelo governador seguinte, o capitão-general do Estado do Pará e Maranhão, Manuel Bernardo de Mello e Castro, conduziu à criação do Arsenal do Pará. Esta empreitada insere-se no quadro das reformas pombalinas, e na política de desenvolvimento da construção naval ultramarina do reinado de D. José I, na tentativa de dar seguimento a vários decretos que pretendiam dar primazia à utilização de navios construídos no Brasil, para a composição das frotas" (In: SALDANHA, Nuno. Joaquim Vicente Foro, Mestre Construtor (Act. 1761-1796) -  As Canoas Cobertas e a Corveta do Arsenal Real de Belém (Brasil). Revista Navigator, número 30, 2019).

Para a construção de uma frota brasileira, a fim de servir às necessidades e à proteção dos colonizadores, Portugal enviou a Belém oficiais, carpinteiros e mestres construtores. Segundo o historiador, o Arsenal de Belém, como ficou conhecido, "não teve naturalmente a dinâmica, nem o alcance, dos arsenais da Corte (ou do de Salvador da Baía), mantendo-se sempre numa escala mais moderada, produzindo embarcações de menores dimensões. Mas não deixou, ainda assim, de ser um centro bastante produtivo, pois, apesar das constantes dificuldades, colocadas pela recorrente escassez de mão de obra e de materiais, produziu, entre 1761 e 1799, pelo que pudemos apurar, cerca de 27 embarcações, de médio e pequeno porte".

Canoa N. Senhora do Pilar, construída na Ribeira da Cidade do Pará, em o ano de 1773, por ordem do Ilmo e Exmº S¤r João Pereira Caldas, sendo Governador, e Capitão General do Estado; o qual a-mandou fazer pelo Mestre Joaquim Vicente, para as suas viagem em visita das Fortalezas, e povoações do mesmo Estado

Joaquim Vicente Foro tornou-se bastante conhecido, entre os construtores que vieram ao Brasil, graças à ilustração (acima), feita por Joaquim José Codina, da canoa Nossa Senhora do Pilar, construída na Ribeira do Pará em 1773, por ordem do então governador João Pereira Caldas. Ao que tudo indica, essa canoa tornou-se modelo para várias outras que seriam construídas depois, usadas para o transporte de pessoas, mercadorias, para a exploração e também para a proteção dos povoados. Abaixo, podemos ver detalhes da canoa.

Espacato da canoa Tab 2ª

Codina não se limitou a desenhar as canoas construídas pelos colonizadores, mas também registrou algumas utilizadas pelos indígenas e seu modo de construção (abaixo), informação valiosa para a coroa, que também buscava conhecer e avaliar as técnicas dos diferentes povos indígenas. 

Uma igarité, uma ubá e uma jangada, e seus acessórios
Construção das canoas ao modo dos índios

Pouco se sabe sobre a vida do desenhista, pintor, copista e aquarelista Joaquim José Codina. Somente que nasceu em Portugal no século XVIII e trabalhou no Real Gabinete de História Natural do Museu da Ajuda, de Lisboa. Há controvérsias sobre o local e a data de sua morte. Alguns historiadores defendem que ele teria voltado a Portugal ao fim da expedição.

Mas o entomologista e ecologista brasileiro José Cândido de Melo Carvalho (1914-1994), que foi diretor do Museu Paraense Emílio Goeldi, em Belém, e do Museu Nacional do Rio de Janeiro, defende que Codina morreu durante a expedição no Brasil. No artigo A Viagem Filosófica de Alexandre Rodrigues Ferreira (In: Revista Ciência Hoje, SBPC, 1984), ele descreve o trajeto de Ferreira: "Em princípios de março de 1790, iniciou sua descida pelos rios até o forte de Coimbra, através de Cuiabá, São Lourenço (Porrudos) e Paraguai. (...) Nesse trecho, perdeu seu segundo acompanhante, o riscador Joaquim José Codina, sepultado no barreiro do sítio de Guarujus. Assim, os membros originais da viagem ficaram reduzidos a dois". Segundo esse mesmo artigo, o jardineiro Agostinho José do Cabo teria morrido em outubro de 1789, dias depois de a expedição chegar a Vila Bela, após uma viagem exaustiva, de mais de um ano, pelo Rio Madeira.