Na Europa, os jardins botânicos foram criados para cultivar e estudar plantas medicinais no século XVI, época em que as navegações se expandiram e as especiarias se tornaram um importante objeto de desejo dos europeus. A aclimatação e cultivo de plantas trazidas de outros continentes se tornou uma das prioridades desses estabelecimentos.

[Ilustrações botânicas]

No Brasil, o primeiro jardim botânico foi criado no Recife, em Pernambuco, no século XVII, pelo médico holandês Willem Piso (1610-1678) e o naturalista alemão Georg Marcgraf (1610-1644), durante a ocupação holandesa entre 1630 e 1654. Os dois estudaram e criaram coleções de animais e plantas regionais, como o caju, na gravura acima, do livro Historia Naturalis Brasiliae, a primeira obra científica sobre a fauna e a flora brasileiras, publicada em Amsterdam, em 1648. Mas, quando os holandeses deixaram o Brasil, as coleções criadas por eles foram destruídas.

No final do século XVIII, os portugueses criaram seu primeiro jardim botânico no Brasil, em Belém, no Pará, já com interesses comerciais. O local foi escolhido por dois motivos: “Primeiro, a proximidade com o famoso jardim botânico francês La Gabrielle, na Guiana Francesa, alvo de cobiça e da 'pirataria', por parte de Portugal, dos vegetais cultivados de diversas colônias francesas. Segundo, a situação geográfica da cidade, na entrada da região amazônica, que vinha sendo objeto de investigação desde a viagem de Alexandre Rodrigues Ferreira”, escreveu a pesquisadora do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Begonha Bediaga, no artigo “Conciliar o útil ao agradável e fazer ciência: Jardim Botânico do Rio de Janeiro - 1808 a 1860” (Revista História, Ciência, Saúde -Manguinhos , n. 14, Rio de Janeiro, dez. 2007).

[Bixa orelanna, Linn.]

O naturalista brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815), que fez a expedição conhecida como Viagem Filosófica pelo Brasil, de 1783 a 1792, havia alertado o governo português para o problema comercial que a extração indiscriminada de certas espécies nativas exportadas para a Europa poderia causar, temendo a extinção de algumas delas, e incentivou seu cultivo. Acima, um dos desenhos feitos durante a expedição retrata uma muda de urucum, planta nativa que sobreviveu à exploração e virou mercadoria de exportação.

“Esse jardim botânico parece ter sido um projeto tão bem-sucedido aos olhos da metrópole que as instituições congêneres seguintes foram criadas à semelhança dele. Logo após a sua implantação iniciaram-se as atividades da chamada 'rede luso-brasileira de jardins botânicos', que permutava produtos entre Caiena, Belém, Olinda e Rio de Janeiro, como fruta-pão, canela, cravo, pimenta e muitos outros vegetais considerados 'úteis'”, escreveu a pesquisadora.

Jardim Botanico

O Jardim Botânico mais famoso do Brasil, o do Rio de Janeiro (acima), só foi criado em 1808, com a função de aclimatar e cultivar especiarias trazidas de outras colônias portuguesas no Oriente. A instituição foi instalada junto à Fábrica de Pólvora e Fundição de Artilharia, que D. João VI (1767-1826) mandou estabelecer no mesmo ano para se proteger de um eventual ataque da França, que já havia invadido Portugal.

Em 1809, o Jardim Botânico La Gabrielle, na Guiana, criado pelos franceses e tomado pelos portugueses em 1809, se tornou o principal fornecedor de mudas para o Brasil. Quando invadiu a Guiana Francesa, D. João ordenou que as tropas que ocupavam Caiena mantivessem o jardim botânico intacto. “É portanto possível constatar que os vegetais eram alvo de 'pirataria' até mesmo incentivada pela Coroa, que se encontrava exilada e buscava de todas as formas fazer represálias à França, assim como se apoderar de possíveis plantas que pudessem proporcionar o antigo poder e os magníficos lucros alcançados por Portugal na época do monopólio das especiarias”, escreveu a pesquisadora.

Avenue of Palms. Botanical Gardens. Rio de Janeiro

As famosas palmeiras imperiais do jardim carioca (acima) são originárias das Antilhas, arquipélago da América Central, e teriam chegado ao Brasil em uma única muda trazida clandestinamente em 1809 de outro jardim, o Jardin La Pamplemousse, nas ilhas Maurício, colônia francesa entre 1715 e 1810. Essa muda original, a Palma Mater, floresceu em 1829 e teria originado todas as outras palmeiras do gênero Roystonea oleracea existentes no Brasil. A espécie ficou conhecida aqui como palmeira imperial porque foi plantada por D. João VI. A Palma Mater foi destruída por um raio em 1972