Os indígenas que habitavam a costa do Brasil, quando os primeiros colonizadores europeus chegaram por aqui, tinham entre suas tradições diversas práticas que envolviam a música e a dança. "A música estava presente nos rituais que precediam a guerra, no deslocamento rumo ao encontro com o inimigo e durante as batalhas. Entre os rituais que antecediam a guerra, estava o conselho entre os homens mais velhos e as consultas com os pajés, tudo terminando em grandes festejos. A expedição guerreira era acompanhada de uma comitiva de músicos, com instrumentos musicais e repertório próprio, que objetivavam elevar o moral da tropa tupinambá", escreveu o pesquisador Rafael Severiano, em seu artigo "Música indígena e valores culturais guerreiros: aspectos musicais da sociedade Tupinambá no Brasil colonial" (XXV Congresso da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música, Vitória, 2015).

[Dança das mulheres tupinambás em volta do cativo Hans Staden, na aldeia de Ubatuba]

O aventureiro alemão Hans Staden (c.1525-1576) descreve alguns desses rituais em seu livro Duas Viagens ao Brasil, publicado na Alemanha em 1557, em que narra sua estadia no novo mundo, entre os anos 1547 e 1554. Staden passou nove meses como prisioneiro dos indígenas e os observou de perto: "Desembarcamos. Nesse momento, todos, jovens e velhos, saíram de suas cabanas, que ficavam num morro, e queriam me ver. Os homens foram com seus arcos-e-flechas para suas cabanas e entregaram-me às mulheres, que ficaram comigo. Algumas andavam à minha frente, outras atrás de mim, e enquanto isso dançavam e cantavam uma canção, o que, segundo seus hábitos, fazem perante o prisioneiro que querem comer. (...) Neste entretempo, os homens se juntaram numa outra cabana. Lá beberam cauim e cantaram em honra aos seus ídolos, chamados maracás, que são matracas de cabaças e que tão corretamente lhes anunciaram a minha captura. Eu podia ouvir o canto, mas durante meia hora não houve homens perto de mim, apenas mulheres e crianças", escreveu.

[Pote, maracá e tigelas usados pelos Tupinambás]

O aventureiro alemão presenciou rituais de guerra sempre acompanhados por canto e dança, que eram, antes de tudo, uma maneira de manter e transmitir a cultura dos indígenas para as novas gerações. O maracá (acima), um chocalho, acompanhava esses momentos, mas era também o instrumento usado para conectar os indígenas ao sagrado e pelos pajés para se comunicar com o sobrenatural.

O missionário francês Jean de Léry (1536-1613), que esteve no Brasil pouco tempo depois, entre 1557 e 1558, como parte da expedição francesa que pretendia instalar no Rio de Janeiro uma colônia, a França Antártica, também conviveu com os tupinambás e registrou em seu livro Histoire d’un voyage faict en la terre du Brésil algumas partitura de seus cantos. "Existem apenas cinco pequenos fragmentos localizados em diferentes capítulos. Duas transcrições, Canide ioune e Piraouassou [sic], estão nos capítulos XI e XII, sobre a fauna brasileira, e os cantos evocam, com letras muito simples, uma ave importante para os tupinambás por suas penas ornamentais – o canindé arara – e um peixe fundamental na sua dieta. As outras três transcrições estão no capítulo XVI, sobre a religião dos tupinambás, incluídas em uma detalhada descrição de um ritual indígena; foram coletadas pelo próprio Léry durante a celebração – segundo ele escreve", anotou o pesquisador Giorgio Monari em seu artigo "Entre historiografia e etnografia musical latino-americana: a música indígena na obra de Jean de Léry (1536-1613)" (In. Atas do II Congresso Internacional “A Língua Portuguesa em Música: Diálogos”; editores: Alberto José Vieira Pacheco e Daniela da Silva Moreira; 2018, Rio de Janeiro. Lisboa: Caravelas, 2025).

[Acampamento em Ocaraçu, onde guerreiros tupinambás dançam ao redor de prisioneiros de guerra]

As partituras de Léry foram o primeiro registro desse tipo e têm seu valor histórico, mas, segundo o pesquisador Luiz César Marques Magalhães, "estas descrições não se encaixam à realidade. Elas não reproduzem as cantigas como eram realmente cantadas pelos tupinambás, mas sim como eram percebidas pelos franceses (...). Assim elas revelam mais sobre a música de quem a transcreveu do que sobre a música daqueles que as cantavam, mais sobre o viajante francês e sua cultura do que sobre o seu objeto: o índio tupinambá e sua música" (IN. 500 anos: música indígena e identidade cultural, XII Encontro Anual da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Música, 1999). O pesquisador argumenta que essas partituras levaram à descaracterização e à disseminação desses cantos, que seriam reencontrados pelos alemães Johann Baptist von Spix (1781-1826), zoólogo, e Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868), botânico, entre os indígenas muras, no Amazonas, entre os anos de 1818 e 1823, e pelo naturalista inglês Conde de Castelnau (1810-1880), entre os apinajés de Goiás, em 1842.

Danse de sauvages de la Mission de St: José

Os jesuítas utilizaram-se da música em seu esforço de conversão dos indígenas à religião católica e ela teria sido o "elemento central do diálogo religioso entre índios e missionários", afirma a pesquisadora Luisa Tombini Wittmann, em seu artigo "Harmonias e dissonâncias da fé: jesuítas, ameríndios e a música nos primeiros anos do contato" (Espaço Ameríndio, Porto Alegre, v. 5, n. 2, out. 2011). "A relação entre religiosidade, poder e música na cultura tupi foi logo percebida pelos missionários, que, na tentativa de conquistar autoridade, buscaram trazer para si formas xamânicas de se conectar com o divino. A música era parte constituinte dos rituais religiosos, fossem as cerimônias indígenas, católicas ou já mescladas pelo contato. (...) De fato, a sonoridade ultrapassava a comunicação verbal tanto na audição de instrumentos musicais quanto no movimento das performances gestuais. Desta forma, a música tornou-se canal essencial da tradução cultural e religiosa entre jesuítas e índios, perpassando toda a história das missões no Brasil". Na gravura acima, Jean-Baptiste Debret (1768-1848) apresenta uma dança de indígenas da missão São José, no sul de São Paulo. Abaixo, a dança dos camacãs, na Bahia, em ilustração do príncipe alemão Maximiliano Alexandre Felipe (1782-1867), também conhecido como Príncipe Maximilian zu Wied-Neuwied.

Danse des Camacans