O naturalista inglês William John Burchell (1781-1863) dedicou sua vida a coletar espécimes de plantas e insetos em diferentes partes do mundo ainda pouco exploradas no começo do século XIX. Nascido em uma família abastada de Londres, de um pai botânico e proprietário de terras, o jovem Burchell viajava nas férias pela Inglaterra e o País de Gales, quando começou a pintar e recolher exemplares para sua coleção. Em 1803, fez um estágio em botânica nos Reais Jardins Botânicos de Kew e foi eleito membro da Sociedade Linneana de Londres, a mais antiga instituição científica do mundo dedicada à história natural. Dois anos depois, então com 24 anos, Burchell decidiu partir para Santa Helena, ilha no Atlântico Sul, ex-colônia e hoje parte do território britânico ultramarino, onde abriu um comércio que durou apenas um ano. Ele havia brigado com a família, que teria se recusado a aceitar seu noivado, e decidiu continuar na ilha, onde se tornou professor e botânico oficial. A noiva, que deveria ir ao seu encontro, iniciou um romance com o capitão do navio que a levava a Santa Helena e o casamento não aconteceu. Burchell então decidiu seguir para a África do Sul, em 1810, onde, por cinco anos, recolheu cerca de 50 mil espécimes e percorreu mais de 7 mil km, além de fazer incontáveis desenhos e anotações. De volta a Londres, o naturalista se dedicou a organizar sua coleção e reunir suas anotações e desenhos nos dois volumes de Travels in the Interior of Southern Africa, publicados em 1822 e 1824. Ao mesmo tempo, começou a angariar fundos e informações para sua próxima viagem, desta vez para o Brasil.
Chegou ao Rio de Janeiro em julho de 1825, depois de passar alguns meses em Lisboa, como integrante da Missão Stuart, comitiva liderada pelo embaixador inglês Charles Stuart que ajudou no reconhecimento da independência do Brasil. No mesmo grupo, estava o artista Charles Landseer (1799-1879), um secretário, dois oficiais e dois médicos. A comitiva deixou o Brasil em maio de 1826, mas Burchell permaneceu no país.
"Ele passou um ano no Rio de Janeiro. Durante esse tempo, dedicou-se a colecionar, desenhar, aprender português, obter informações sobre a cultura e a natureza brasileiras e estabelecer contatos, especialmente na comunidade britânica. Também fez duas pequenas excursões: uma a Minas Gerais entre outubro e novembro de 1825 e outra à Serra dos Órgãos em fevereiro de 1826. Em 10 de setembro de 1826, Burchell finalmente deixou o Rio de Janeiro rumo à cidade de Santos, no navio Aurora, acompanhado por seu criado pessoal, Joaquim Congo. Após meses em Santos, Burchell e Joaquim embarcaram em uma jornada pelo interior do Brasil. Eles se dirigiram primeiro para Cubatão e depois para São Bernardo, em direção à cidade de São Paulo, onde permaneceram por seis meses. Em 25 de julho de 1827, partiram de São Paulo e, após três meses viajando pelo sertão, chegaram a Goiás em 3 de novembro de 1827", escreveu a pesquisadora Patrícia Silveira, em seu artigo "A viagem de exploração de William J. Burchell ao Brasil (1825-1830) e a rede de intermediários no campo" (Revista Geografias, v.20, n.2, Jul./ Dez. 2024, Universidade Federal de Minas Gerais).
No Brasil, Burchell coletou milhares de espécimes botânicas e mais de 20 mil insetos. Seu plano era viajar também pelo Peru, Bolívia e Argentina, mas decidiu antecipar sua volta quando, em Vila Boa de Goiás, tomou conhecimento do debilitado estado de saúde de seu pai. Assim, decidiu seguir diretamente para Belém, onde pegaria um navio para a Inglaterra. Chegou em novembro de 1828 em Porto Real, mas só conseguiu sair de lá, navegando pelo rio Tocantins, em abril do ano seguinte, e teve que esperar até fevereiro de 1830 para embarcar em um navio para sua terra natal. Nesse meio tempo, recebeu uma correspondência atrasada que informava a morte de seu pai em julho de 1828.
Em seu trajeto, Burchell percorreu partes do Brasil que ainda não haviam sido exploradas pelos viajantes. "Analisando as cartas de Burchell para familiares e amigos em suas viagens a Santa Helena, África do Sul e Brasil, ele frequentemente se descrevia como um viajante solitário. Era verdade que ele não era o líder de uma grande expedição nem estava acompanhado por seus pares durante longos períodos (...). Como qualquer outro viajante ocidental em sua posição, Burchell dependia de mão de obra local, conhecimento especializado e conselhos de diversos intermediários. Infelizmente, as evidências encontradas nos arquivos de Burchell sobre grupos indígenas e intermediários em sua viagem pelo Brasil são fragmentadas e marginalizadas. Além disso, Burchell tinha uma visão muito negativa da população brasileira, o que apenas reforçou sua indiferença ao trabalho deles", observa Silveira no artigo citado. A pesquisadora destaca a presença do escravizado Joaquim Congo, que ajudou o naturalista em todo tipo de serviço, inclusive o de coletar espécimes, o acompanhou durante toda a viagem e seguiu com ele para Londres.
Além de sua inegável contribuição com suas coleções para os estudos das ciências naturais, os desenhos detalhados de Burchell também são objeto de interesse de arquitetos e historiadores. "A coleta, a seleção e a organização de seu herbário, de suas coleções da fauna e de artefatos etnográficos supunham a observação, imersão, o registro e a representação artística de ambientes naturais e paisagens culturais dos quais estes proviam. Ao intuir uma relação recíproca entre ciência e arte e ao intercalar observações por escrito com desenhos, Burchell criaria, além do mais, uma poética própria, na qual os ambientes são apresentados com o máximo de concisão", escreveu a pesquisadora Maria Cristina Wolff de Carvalho em seu artigo "A visão da paisagem na obra de William John Burchell (1781–1863)" (Revista Arquiteturismo, São Paulo, n. 73, mar. 2013).
Burchell não reuniu suas pesquisas sobre o Brasil em uma publicação, como fez com sua jornada na África do Sul. Ele morreu no jardim de sua casa em Londres, onde se enforcou. Sua irmã, Anna Burchell, doou suas coleções de plantas e insetos, desenhos e manuscritos para os Reais Jardins Botânicos de Kew e o Museu da Universidade de Oxford. Seus desenhos e aquarelas também estão presentes nas coleções do Museu África, em Joanesburgo, na África do Sul, e no Instituto Moreira Salles, estes que podem agora ser vistos aqui neste portal.