Em junho de 1856, o pintor francês Henri-Nicolas Vinet (1817-1876) desembarcou no Rio de Janeiro acompanhado por sua mulher, Laura, e seu filho, Camille. Não existem muitas informações sobre a infância e a formação do artista, apenas que nasceu em Paris e que seus pais provavelmente trabalhavam no comércio. Ainda na França, Vinet se dedicou à pintura de paisagens, convivendo com outros artistas da chamada École de Barbizon, que pintavam en plein air, ao ar livre, nos arredores de Paris. Sua primeira participação no Salão, exposição de arte oficial e conceituada que acontecia anualmente na capital francesa, foi em 1841 com a pintura Vue de la fôret de Fontainebleau par une matinée d'octobre.

"O interesse cada vez maior dos artistas pelo desconhecido, o distanciamento das regras clássicas, a portabilidade dos materiais e o desejo de inovar nas formas e cores impulsionaram a transformação dos métodos e da execução da pintura de paisagem, renovação esta que conhecerá seu auge na década de 1870, com o movimento impressionista. Gustave Courbet, Camille Corot e os artistas da chamada École de Barbizon foram os primeiros protagonistas dessas mudanças na França. No Brasil, coube ao artista francês Henri-Nicolas Vinet operar essa mesma transformação. Sua filiação a Corot, mencionada pelos jornais do Rio de Janeiro, confirma as inovações empreendidas pelo artista, tornando-se, também ele, um dos protagonistas da renovação do gênero da paisagem no Brasil", escreveu a pesquisadora Elaine Dias, em seu artigo "A renovação da pintura de paisagem no século XIX: O plein air, a École de Barbizon e a formação francesa de Henri-Nicolas Vinet" (In: MODOS: Revista de História da Arte, Campinas, SP, v. 8, n. 3, set. 2024).

Vista do convento de Santa Teresa tomada do alto de Paula Matos

Vinet se estabeleceu no Brasil e começou a dar aulas de pintura e desenho em seu ateliê ou na casa dos alunos. Logo se aproximou dos artistas que viviam aqui e começou a participar de exposições no Rio de Janeiro, como a do Teatro São Pedro de Alcântara, em 1858, e as Exposições Gerais da Academia Imperial de Belas Artes, a partir de 1859, em que recebeu diversas medalhas. A partir de 1860, o artista decidiu deixar a cidade e passar períodos em florestas próximas para pintar em contato direto com a natureza, como havia feito na França.

"Suas pinturas brasileiras, no entanto, foram por vezes criticadas na imprensa, consideradas pesadas e escuras na representação do céu, das matas e das montanhas que, para os críticos, fugiam da cor local e lembravam mais seu país de origem (...). Além disso, consideravam suas telas muito parecidas umas com as outras, crítica que também foi feita a Corot na França", escreveu a mesma pesquisadora no livro Artistas franceses no Rio de Janeiro (1840-1884): das Exposições Gerais da Academia Imperial de Belas Artes aos ateliês privados : fontes primárias, bibliográficas e visuais (organização: Elaine Dias; Guarulhos: EFLCH UNIFESP, 2020).

Cena na floresta da Tijuca (atribuído)

Nas duas pinturas de Vinet que integram o acervo da Brasiliana Iconográfica é possível observar tanto uma vista mais urbana, do convento de Santa Teresa, como uma cena na floresta da Tijuca. O artista costumava fazer a pintura no local, procurando retratar a luz e a natureza de maneira fiel, e depois elaborava a composição da tela em seu ateliê, às vezes inserindo figuras humanas na paisagem, como nos dois exemplos acima.

Apesar das críticas que recebeu, Vinet conquistou muitos admiradores entre a burguesia do Rio de Janeiro que começava a colecionar arte e suas telas continuaram a ser vendidas mesmo depois de sua morte, em 1876. A maioria das obras de Vinet está, até hoje, espalhada por coleções particulares.