Em sua carta ao rei de Portugal, Dom Manuel, o escrivão Pero Vaz de Caminha (1450-1500) primeiro afirmou acreditar que os indígenas não tinham casas e viviam ao relento. Em seguida, depois da volta ao navio de um degredado que fora enviado à terra firme, descobriu que havia sim, entre eles, "umas choupaninhas de rama verde". Em um terceiro momento da carta, Caminha contou que outros homens mandados explorar a região teriam voltado de uma caminhada mais longa com a informação de que "haveria nove ou dez casas, as quais eram tão compridas, cada uma, como esta nau capitânia. Eram de madeira, e das ilhargas de tábuas, e cobertas de palha, de razoada altura; todas duma só peça, sem nenhum repartimento, tinham dentro muitos esteios; e, de esteio a esteio, uma rede atada pelos cabos, alta, em que dormiam. Debaixo, para se aquentarem, faziam seus fogos. E tinha cada casa duas portas pequenas, uma num cabo, e outra no outro. Diziam que em cada casa se recolhiam trinta ou quarenta pessoas, e que assim os achavam". Os portugueses tiveram uma descrição bastante detalhada de como viviam os habitantes daquela terra desconhecida.
A descrição de Caminha coincide com as xilogravuras do livro do aventureiro Hans Staden (c.1525-1576), A verdadeira história dos selvagens, nus e ferozes devoradores de homens, encontrados no Novo Mundo, a América, publicado na Alemanha em 1557, em que se pode ver as habitações compridas, construídas com madeira e palha. Na obra do alemão, que viveu como prisioneiro dos tupinambás na região de Ubatuba, vemos que muitas aldeias são cercadas para proteção tanto contra inimigos locais como os estrangeiros, que começavam a invadir suas terras.
O livro de Hans Staden, com as primeiras imagens do chamado Novo Mundo, teve grande repercussão na Europa, mas a carta de Caminha, datada de 1500, ficou praticamente inédita, guardada nos arquivos portugueses até 1773. Nesses quase três séculos, a população indígena diminuiu drasticamente, pela violência e as epidemias levadas pelos colonizadores, e os eventuais exploradores que percorreram o Brasil não se detiveram em estudar as construções indígenas.
No final do século XVIII, a expedição comandada pelo brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815), que percorreu, a mando do governo português, as capitanias do Grão-Pará, Rio Negro, Mato Grosso e Cuiabá, entre 1783 e 1792, registrou principalmente a flora brasileira, mas também algumas habitações indígenas na Amazônia, como a casa em Monte Alegre (acima), no Pará, uma das aldeias mais antigas, habitada pelos indígenas há mais de 12 mil anos, e àquela altura já transformada em vila. A expedição registrou também uma construção de dois andares (abaixo) que seria uma das 22 existentes em uma aldeia de indígenas Curutús, no rio Negro.
No começo do século XIX, com a abertura dos portos para nações amigas de Portugal, estudiosos de diversas nacionalidades vieram ao Brasil, mas se interessaram mais pela flora, fauna e geologia do país, dando pouca atenção ao modo de vida dos povos originários. O francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848) publicou em seu livro, Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, uma gravura (abaixo) que mostra alguns tipos de cabanas de diferentes etnias indígenas, como os puris, pataxós, botocudos e outros, que o artista nunca visitou. Esses desenhos se repetiram em obras de diversos artistas e viajantes que estiveram por aqui e mostram que, de fato, pouco se sabia sobre essas construções.
Embora diversas, as habitações indígenas espalhadas pelo território brasileiro tinham em comum o uso de materiais naturais, como madeira e fibras vegetais, que variavam de acordo com sua disponibilidade nas diferentes regiões e, apesar de toda a destruição causada pelos colonizadores, a arquitetura nativa se adaptou e sobreviveu nas terras indígenas. Diante dos desafios impostos pelas mudanças climáticas e ambientais, o aspecto sustentável dessas moradias tem inspirado arquitetos contemporâneos.