O Brasil é hoje o terceiro maior produtor e o maior exportador de frangos do mundo. As primeiras galinhas domésticas chegaram ao Brasil no início do século XVI a bordo das caravelas de Pedro Álvares Cabral (1467-1520) e de outros colonizadores. Essa espécie de ave (Gallus domesticus) é nativa do sudeste da Ásia e teria chegado à Europa por volta do século VI a.C. e então trazida para cá. Sua sobrevivência em solo brasileiro deve-se sobretudo à recepção que tiveram pelos povos indígenas.

Selling Poultry

Como escreveu o fidalgo Pero Vaz de Caminha (1450-1500), em sua famosa carta ao rei d. Manoel de Portugal, sobre a interação entre portugueses e indígenas a bordo da caravela, "mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-no logo na mão e acenaram para a terra, como quem diz que os havia ali. Mostraram-lhes um carneiro: não fizeram caso. Mostraram-lhes uma galinha, quase tiveram medo dela: não lhe queriam pôr a mão; e depois a tomaram como que espantados". Essa teria sido a primeira vez que os povos originários tiveram contato com esses animais. "A natureza do medo dos índios merece consideração, tanto mais que, como deixa transparecer o texto de Caminha, eles mostraram interesse particular pelas aves trazidas pela expedição (entre elas um papagaio pardo, provavelmente de origem africana, que pertencia a Cabral), 'não fazendo caso' do carneiro, animal aparentemente mais aberrante se temos em mente a fauna nativa das florestas do litoral da América do Sul", escreveu o pesquisador Felipe Ferreira Vander Velden, em seu artigo "As galinhas incontáveis. Tupis, europeus e aves domésticas na conquista no Brasil" (Journal de la Société des Américanistes, tomo 98, n.2, Société des Américanistes, 2012).

Marchand de volailles a la roca

Adotadas pelos povos originários e pelos poucos portugueses degredados que permaneceram no Brasil, as galinhas procriaram livremente, sobretudo porque viraram uma espécie de animal de estimação dos indígenas que, em geral, não comiam sua carne e nem seus ovos. Rapidamente a espécie se espalhou pelas aldeias do litoral brasileiro e a frota do navegador português Fernão de Magalhães (1480-1521) teria encontrado galinhas criadas pelos tupinambás da baía da Guanabara, em 1519. O missionário francês Jean de Léry (1536-1613), que esteve no Brasil entre 1556 e 1558, observou em seu livro Histoire d'un voyage fait en la terre du Brésil, autrement dit Amérique como os indígenas aproveitavam as penas das galinhas em sua vida cotidiana: "criam os nossos americanos grande quantidade de galinhas comuns, cuja raça foi introduzida pelos portugueses. Depenam as brancas e com instrumentos de ferro (...) picam bem miúdo o frouxel e as penas pequenas; depois fervem e tingem de vermelho com pau brasil e esfregando o corpo com certa resina apropriada grudam-nos em cima, ficando assim vermelhos e emplumados como pombos recém-nascidos".

Os indígenas passaram a fornecer galinhas e ovos aos portugueses. "Criadores e fornecedores de galinhas, mas nunca, ressalte-se, de forma sistemática, as aldeias indígenas na costa da América portuguesa, nas primeiras décadas da conquista, parecem ter sido, sob a ótica dos lusitanos, grandes galinheiros, assim como eram, também, grandes roçados que alimentavam engenhos e cidades e que, quando faltavam, em função, por exemplo, da rápida dizimação dos índios, provocavam mesmo fome entre os colonizadores. (...) Tão logo perceberam que os roçados indígenas podiam produzir abundantemente, e que as galinhas ali se multiplicavam de maneira espetacular, os portugueses puderam se preocupar menos ainda com a produção de subsistência, dedicando-se integralmente ao pau-brasil, ao açúcar e a outros gêneros de exportação", escreveu o pesquisador no artigo citado.

Marchand de sestes, Paniers qui se portent sur la tête / Nègre vendeurs de volaille

As galinhas seguiram o movimento dos colonizadores para o interior e se tornaram importante fonte de alimentação na exploração do ouro, tornando Minas Gerais o principal polo produtor da ave a partir do século XVIII (hoje substituído pelo Paraná e os outros estados do sul do Brasil). Como mostram as gravuras acima, os vendedores desses animais nas cidades e nas roças eram bastante comuns. O artista francês Jean-Baptiste Debret (1768-1848) observa em seu livro Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, publicado na França entre 1834-1839, que as galinhas que abasteciam o Rio de Janeiro, depois do aumento da população com a chegada de muitos estrangeiros, podiam ser "importadas" de Minas Gerais ou São Paulo, mas que muitos consumidores preferiam as que eram criadas nas proximidades já que, transportadas em cestos no lombo de burros no calor, as galinhas sobreviviam pouco após a viagem.

Pauvre famille dans sa maison / Menuisier allant s´installer. Transport de feuilles d´aloès

Sobre a gravura acima, intitulada Uma família pobre em sua casa, onde se vê mais de uma galinha na sala, Debret escreve: "Algumas galinhas de diferentes raças, criadas em liberdade dentro e fora da casa, e alimentadas exclusivamente de insetos, tão abundantes no Brasil, constituem para esses indigentes uma especulação lucrativa, pois oferecendo-as como presente a seus protetores provocam gestos generosos nos dias de festas importantes" (Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2016).

Cada vez mais popular, a galinha se tornou especialidade culinária brasileira em diferentes regiões. A canja, uma receita que veio da China ou da Índia, não se sabe ao certo, já era apreciada pelos portugueses antes da colonização. É sabido que era o prato preferido de D. Pedro II (1825-1891), mas na versão preparada com macuco, uma ave nativa da Mata Atlântica, hoje ameaçada de extinção.