A princesa Leopoldina (1797-1826), primeira mulher de D. Pedro (1798-1834), chegou ao Brasil em 1817, nove anos depois de a corte portuguesa ter se mudado para o país, em 1808, quando trouxe inúmeras novidades, entre elas o conceito de moda. Antes disso, mesmo a população mais endinheirada que vivia na colônia tinha pouco acesso a revistas que já existiam na Europa, lojas de vestuário e tecidos finos ou modistas.
A revolução francesa, que em 1789 havia deposto a monarquia, mudou a moda na Europa: o estilo, antes rococó, foi substituído por outro mais simples, inspirado no clássico e denominado Império. “Como a palavra de ordem era a simplicidade total e ostentar não era um ato republicano, os modelos neoclássicos foram escolhidos para reportar esse período, dando início à primeira classificação histórica, o estilo Império, permanecendo até a década de 20 do século XIX”, escreveram os pesquisadores Marli Gomes de Araújo, João Paulo Pereira Marcicano e Maria Sílvia Barros de Held, no artigo “A obra de Jean-Baptiste Debret como fonte histórica para os estudos dos trajes usados no Brasil no início do século XIX” (Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, Brasil, n. 74, dez. 2019).
Para o guarda-roupa feminino, o novo estilo trouxe a túnica, um vestido simples e decotado que mostrava o colo e os braços, feito em tecido mais leve, com um corte abaixo do peito. “Esse modelo pode ser descrito como uma camisola solta de cintura alta até a região abaixo do busto, decote quadrado e comprimento até as canelas, sendo usado com sapatilhas. Para acompanhar o modelo, entram em moda as luvas longas e os variados estilos de xale. Devido à leveza do tecido, o estilo era adequado ao clima brasileiro e foi difundido e amplamente usado pelas damas da Corte, Dona Leopoldina e Dona Carlota (...). Os cabelos femininos eram penteados à moda grega e usavam plumas de avestruz presas como ornamento de cabeça”, escrevem. O modelo pode ser visto nas gravuras, acima, usado por D. Carlota Joaquina e D. Leopoldina, e, abaixo pelas damas da corte, as duas ilustrações do francês Jean Baptiste Debret (1768-1848).
O artista desenhou ainda o traje imperial da arquiduquesa Maria Luísa de Áustria (1791-1847), irmã de Leopoldina e segunda mulher de Napoleão Bonaparte (1769-1821), no mesmo estilo, mas com alterações como o volume cônico da saia (abaixo), que esconde as formas do corpo.
Os novos ares trazidos pelo movimento romântico, iniciado no final do século XVIII na Europa, chegaram ao Brasil com certo atraso, principalmente após a independência, em 1822, e influenciaram a moda. Segundo o artigo citado, “a Era Romântica provocou grandes mudanças em relação ao estilo Império, sobretudo no guarda-roupa feminino. Agora, o vestido é composto de corpete comprido e decotado, que até então era bem curto, à altura do busto, com decote quadrado ou redondo, e a cintura retorna para seu lugar. A saia torna-se mais volumosa, usada acolchoada ou bem engomada, e recebe barra de babados e outros adornos. As mangas passam a ter enchimento nos ombros, recebendo o formato bufante. Em 1825, a manga novamente recebe outra alteração com a adesão de outra manga sobreposta, que podia ser em gaze transparente. Os vestidos de gala e de noite eram bem decotados, e os ombros ficavam totalmente à mostra”, escreveram os pesquisadores.
Depois da morte precoce de Leopoldina, D. Pedro I casou-se novamente, em 1829, com Amélia de Leuchtenberg (1812-1873), que foi Imperatriz Consorte do Brasil por pouco tempo, até 1831. Na pintura de Debret, acima, que retrata o casamento, “nota-se a nova tendência romântica no vestido de noiva da Imperatriz, cujo decote acompanha o modelo em voga e o barrado com babados e ricamente bordado com fios de prata. As mangas são bufantes e a cintura já se apresenta bem marcada e em seu devido lugar. (...) Chama-se atenção para a representação no adorno do vestido à altura do busto, uma flor verde, que complementa a simbologia dos ícones que representam o novo Brasil”, descrevem os pesquisadores.