Em setembro de 1711, corsários franceses sequestraram por cerca de dois meses o Rio de Janeiro. Um ano antes já haviam tentado, sem sucesso, tomar a cidade. O principal chamariz era o ouro que chegava ao porto do Rio para ser levado a Portugal. Desde 1698, quando a Europa soube da grande descoberta de ouro nas Minas Gerais e da migração de grande parte da população para o interior do Brasil, a cidade passou a ser alvo de piratas e corsários de países que não eram aliados do reino de Portugal, como a França.

O Rio de Janeiro foi atacado por uma frota de 17 navios comandada pelo corsário francês René Duguay-Trouin (1673-1736) que, com apoio e permissão do rei Luís XIV (1638-1715), vinha saqueando navios mercantes e de guerra por onde passasse. Apesar do óbvio interesse econômico na tomada do Rio de Janeiro, o corsário justificava sua invasão pela crueldade com que os portugueses teriam tratado outro corsário francês, Jean-François Duclerc (?-1711), que tentara invadir a cidade um ano antes e fora assassinado no Rio de Janeiro.

Em 1710, Duclerc foi impedido de entrar na Baía de Guanabara pelos canhões disparados dos fortes que protegiam a cidade. Rumou para o sul, até Guaratiba, tentou tomar a cidade por terra, mas foi impedido pelas forças portuguesas e pela população. Os que não foram mortos, terminaram presos.

Desde então já era esperado um novo ataque francês à cidade e a invasão em 1711 não foi uma surpresa. A Inglaterra, aliada de Portugal, avisara que uma esquadra invasora francesa estava a caminho do Brasil e a cidade tinha reforçado sua defesa com quatro navios de guerra portugueses.

Ainda assim, a invasão, que começou na noite de 11 de setembro, foi rápida e eficaz. Um vento forte deu velocidade à esquadra que se aproximava da entrada da baía de Guanabara e evitou que seus navios fossem alvo fácil dos canhões. A neblina da manhã também ajudou e, no dia seguinte, a esquadra já havia invadido a baía e começado a bombardear a cidade.

No mesmo dia, os franceses explodiram o forte da ilha de Villegaignon, dentro da baía, e no dia seguinte tomaram a Ilha das Cobras, onde Duguay-Trouin mandou colocar canhões para bombardear a cidade. Tropas francesas desembarcaram no Saco do Alferes e na Praia Formosa. A essa altura, muitos começaram a fugir da cidade em direção ao interior. Na época, o Rio de Janeiro tinha uma população de 12 mil habitantes.

No dia 21 de setembro, Duguay-Trouin ordena o ataque final à cidade, por mar e terra. "Eis senão quando, foi esse plano inteiramente transtornado, por duas causas: primeira, o desabar de terrível borrasca, com raios e trovões, seguida de copiosíssimo aguaceiro, que, ensopando d'água nossas tropas, não lhes permitiu fazer uso das armas de fogo. A segunda, foi que, cerca da meia noite, tendo os inimigos se apercebido do nosso desembarque, fingindo socorrer ao Mosteiro de S. Bento, por completo abandonaram não só esse ponto, mas igualmente, toda a praça, não obstante tão terrível tormenta, fugindo para longínquas montanhas que cercam a cidade. Passou a reinar, então, em suas hostes, tamanha confusão e desordem, que, pelos caminhos e picadas que àqueles lugares conduzem, inteiramente alagadas e tomadas por impetuosas e fortíssimas torrentes, numerosas criaturas pereceram afogadas no turbilhão das águas. O próprio governador, com vários de seus ajudantes e o restante da guarnição, presas de um terror pânico, temendo serem capturados e tratados sem nenhuma compaixão e piedade, conforme ameaças que lhes haviam sido feitas, e que, no íntimo, julgavam realmente merecer, pelas crueldades praticadas com nossos compatrícios, covarde e miseravelmente desertaram seus postos, deixando em completo abandono o Rio de Janeiro, com tudo quanto nele existia ao nosso arbítrio", escreveu o tenente Louis Chancel de Lagrange (1678-1747), que integrava a esquadra do corsário francês, em seu relato A Tomada do Rio de Janeiro em 1711 por Duguay-Trouin, publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 1966.

Attaque générale par terre et par mer de Rio-Janeyro, prise d´Assaut pendant un violent Orage le 21 Septembre 1711

É esse dia de tempestade que mostra a gravura acima, pertencente ao álbum Recueil de combats et d'expéditions maritimes, contenant des Vues perspectives et pittoresques de ces combats, les plans particuliers des continens, isles et ports à la vue desquels, ils ont eu lieu, le texte explicatif de chaque sujet, publicado na França em 1797, com gravuras e textos do engenheiro e designer naval francês Nicolas Marie Ozanne (1728-1811). O álbum, dirigido a estudiosos da marinha e de construções navais, reúne informações que glorificam a marinha francesa em diferentes lugares e momentos históricos, desde 1625 até 1778.

Depois da triste debandada da população e do total domínio do Rio de Janeiro, o corsário francês impôs um preço altíssimo para deixar o Rio de Janeiro: 2 milhões de libras francesas. Os portugueses, sem muito dinheiro em seus cofres brasileiros, pechincharam o quanto puderam e a negociação, feita à distância, levou semanas, durante as quais os franceses foram saqueando tudo o que viam pela frente. Duguay-Trouin ameaçava queimar toda a cidade, mas somente em 28 de outubro o capitão-governador do Rio de Janeiro, Francisco Castro Morais, cedeu, quando convenceu a população toda a ajudar a pagar o resgate os franceses.

Em 13 de novembro, a esquadra de Duguay-Trouin partiu de volta para a França levando uma fortuna: 600 quilos de ouro, 610 mil cruzados, cem caixas de açúcar, 200 bois, escravos e outros itens que pegaram pelo caminho. Ao capitão-governador do Rio sobrou a pecha de covarde e culpado pela derrota.