O austríaco Thomas Ender (1793-1875) foi um dos mais produtivos e  renomados artistas viajantes que estiveram no Brasil na primeira metade do século XIX. Ele veio ao país na comitiva que acompanhou a arquiduquesa Leopoldina (1797-1826), casada com o futuro príncipe regente D. Pedro (1798-1834), a chamada Missão Austríaca. Ender tinha 23 anos quando chegou ao Rio de Janeiro em 14 de julho de 1817. Ficou menos de um ano no país, mas produziu mais de 700 obras, como desenhos, aquarelas e gravuras.

Proveniente de uma família simples, Ender pagou seus estudos na Academia de Belas Artes de Viena, que começou a frequentar aos 13 anos, com o dinheiro que ganhava tocando violino em cafés à beira do Rio Reno. Logo se destacou como pintor de paisagens e teve um de seus quadros adquirido pelo príncipe Metternich (1773-1859), que se tornou seu patrocinador e o incentivou a integrar a comitiva que veio ao Brasil.

Ender trabalhou incansavelmente enquanto esteve no Brasil. Produziu desenhos para as gravuras que iriam ilustrar as obras dos naturalistas que acompanhava na viagem e também uma infinidade de aquarelas retratando a arquitetura, os habitantes e a vida no Rio de Janeiro. Sofrendo com o excesso de trabalho, o clima e problemas de saúde, Ender retornou a Viena em 1º de junho de 1818, levando com ele as obras que produziu aqui.

Suas famosas aquarelas pertencem ao acervo da Academia de Belas Artes de Viena, da qual se tornou membro e professor, e só ficaram conhecidas no Brasil nos anos 1950. Centenas de reproduções de suas aquarelas podem ser vistas nos três volumes do livro Viagens ao Brasil nas Aquarelas de Thomas Ender (Kapa Editorial, 2000). Podemos apreciar uma delas aqui no site da Brasiliana Iconográfica.

[Aspecto tirado a bordo da fragata Áustria em sua viagem para o Rio de Janeiro em 9 de abril de 1817 vendo-se entre outros passageiros, Spix e Martius]

Na gravura aquarelada acima, vemos passageiros na fragata Áustria, que trouxe Ender ao Brasil em 1817. No grupo retratado, estão os bávaros Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868) e Johann Baptist von Spix (1781-1826), respectivamente botânico e zoólogo, integrantes da mesma comitiva. Depois de passarem cerca de seis meses no Rio de Janeiro e seus arredores, Ender viajou com Von Martius e Spix para São Paulo no final de 1817. Fruto dessa viagem, temos abaixo duas gravuras complementares que mostram o monte que se chama Morro Formoso, no limite da Província do Rio de Janeiro e S. Paulo.

Mons Qui Dicitur Morro Fermozo in confinio Prov. Rio de Janeiro et S. Pauli. Tabulae pars sinistra ornata filicibus arborescentibus
Mons Qui Dicitur Morro Fermozo in confinio Prov. Rio de Janeiro et S. Pauli. Tabulae pars dextra distincta graminibus arborescentibus

Essas gravuras integram o compêndio Flora Brasiliensis, editado por Von Martius em Viena, por volta de 1842, assim como esta dupla de pranchas (abaixo) que retratam a vista do cimo do Morro do Corcovado, perto de São Sebastião (do Rio de Janeiro).

Prospectus e Cacumine Montis Corcovado, Prope Sebastianopolin. I
Prospectus e Cacumine Montis Corcovado, Prope Sebastianopolin. II

Outro cientista que se beneficiou do talento de Thomas Ender para desenhar paisagens foi o médico, geólogo e botânico austríaco Johann Baptist Emanuel Pohl (1782-1834), que veio ao Brasil encarregado da área de mineralogia na mesma missão do pintor. Pohl desligou-se da expedição e viajou durante quatro anos pelo interior do Brasil, passando por Minas Gerais, Goiás, Tocantins, até chegar à divisa com o Maranhão. Em 1821, Pohl voltou para o Rio de Janeiro e de lá embarcou para Viena, levando cerca de 200 animais vivos e mais de 1.500 espécies de plantas.

Abaixo, vemos gravuras do Atlas zur Beschreibung dei Reise in Brasilien, de Pohl, editado em Viena, em 1832. As obras foram feitas por Thomas Ender com base em esboços de Pohl. Vale notar que Ender não acompanhou Pohl em sua viagens, nunca esteve em nenhuma dessas regiões retratadas com tantos detalhes nas três gravuras.

Ansicht der Serra das Figuras, vom Rio Maranhao
Villa Rica
Cidade de Goyaz, früher Villa Boa, Hauptstadt der gleichnahmigen Capitanie

Esta última obra retrata a cidade de Goyaz, antes conhecida como Villa Boa, na província de Goiás, região então ainda muito pouco explorada pelos viajantes europeus. Além da descrição minuciosa de diferentes vegetações, solos e acidentes geográficos das regiões por onde passou, Pohl se deteve no contato que teve com os habitantes e registrou listas de palavras da etnia Cayapó do Sul, que vivia em um assentamento próximo a Villa Boa e foi extinta em meados do século XX, e também dos xavantes, que viviam no Norte de Goiás. Esses registros podem ser encontrados nos dois volumes de seus diários de viagem, publicados em Viena, respectivamente, em 1832 e 1837, reunidos e traduzidos no Brasil no livro Viagem ao Interior do Brasil, Empreendida nos Anos de 1817 a 1821 (Trad. Milton Amado e Eugênio Amado. São Paulo: Edusp, 1976).