O botânico alemão Carl Friedrich Philipp von Martius (1794-1868), impressionado com o tamanho e a idade das árvores que conheceu no Brasil, em particular na floresta amazônica, escreveu em sua obra Flora Brasiliensis: “Todos aqueles povos bárbaros americanos que não chegaram a se tornar conhecidos, surgiram e desapareceram sem deixar qualquer vestígio, mas estas árvores continuam vivendo a sucessão de seus dias”. Infelizmente, ele estava certo sobre os povos indígenas - equivocadamente chamados de bárbaros - que aqui viveram e foram dizimados, mas errado quanto à longevidade das árvores. O ano de 2020, além de ficar marcado pela pandemia da Covid-19, também entra para a história como recordista na destruição da vegetação brasileira.

No ano que passou, a área desmatada da Amazônia foi a maior da última década: 11.088 km² de floresta. Outro bioma, o Pantanal, foi um dos que mais sofreram: até setembro do ano passado, 22% (32.910 km²) de sua área total havia sido atingida pelas queimadas, na maior seca já registrada em 50 anos, destruindo a vegetação e matando muitas espécies de animais. Além do aquecimento global, o aumento descontrolado da pecuária e da agricultura e o crescimento das cidades na região colaboram para a seca atual. 

O rio Paraguai, o principal da região, está com o nível do curso de água mais baixo dos últimos 55 anos, aumentando o sofrimento de todos os seres vivos desse bioma. Ele é o oitavo maior rio em curso de água da América do Sul. Nasce no Brasil e passa pela Bolívia e pelo Paraguai até chegar à foz na Argentina.

Ripae Fluviae Paraguay in Mato Grosso

Esta gravura, "Ripae Fluviae Paraguay in Mato Grosso" (Margens do Rio Paraguai em Mato Grosso), é uma das poucas da gigantesca obra de Von Martius que retratam a vegetação do Pantanal, bioma que ele não chegou a visitar durante os três anos em que viajou pelo Brasil (1817-1820), passando pelos estados de Minas Gerais, Goiás, Bahia, Pernambuco, Piauí, Maranhão e Pará, percorrendo o Amazonas brasileiro e seus afluentes, somando mais de 14 mil quilômetros. Já de volta à Europa, para produzir a Flora Brasiliensis, Von Martius contou com ilustrações e informações de outros viajantes que lhe forneceram material para que conseguisse realizar a que é considerada até hoje a maior compilação da flora brasileira.

O desenho original, que serviu de base para essa gravura, é de autoria de Hugh Algernon Weddell (1819-1877), médico e botânico inglês criado na França, que veio ao Brasil, onde ficou por cinco anos, na expedição de François Louis de Laporte, o conde de Castelnau (1810-1880). Entre 1843 e 1847, viajaram pelo interior da América do Sul, do Rio de Janeiro até Lima, via Bolívia, e de Lima ao Pará. Um dos principais focos da expedição era realizar um levantamento cartográfico completo das regiões visitadas.

Apesar de não ter chegado às margens do rio Paraguai, Von Martius, em suas viagens, procurou reunir o máximo de informações possíveis sobre a área. Em seu livro Viagem pelo Brasil, escrito em parceria com o zoólogo alemão Johann Baptiste von Spix (1781-1826), que veio junto com ele ao país em 1817, na missão austríaca, Von Martius dedica várias páginas ao comércio que se estabelecia por via fluvial entre São Paulo e Cuiabá. "Especialmente importante pareceu-nos uma visita à vila do Porto Feliz no Rio Tietê, onde poderíamos colher muitas informações sobre o comércio entre São Paulo e Mato Grosso. (...) De Porto Feliz partiram os paulistas, nas suas primeiras expedições para investigar os sertões a oeste. Sede de ouro e amor a aventuras já os incitavam, no fim do século 17, a seguir pelo curso do Tietê. Depois de haverem transposto com felicidade suas muitas cachoeiras, foram eles descendo para o Paraná, e deste passaram ao Rio Pardo, pelo qual foram então subindo. As águas cristalinas do Rio Sanguessuga, uma das nascentes principais do Rio Pardo, pareceram prometer-lhes farto lucro de ouro. Eles percorreram a região, lavaram a terra em busca do almejado metal, alcançaram na divisa das vertentes da Serra de Camapuã as nascentes do Embotataí, e desceram este rio abaixo, até se acharem, finalmente, nas amplas águas do Paraguai. Na verdade, a princípio não deram com ouro algum nessas regiões pantanosas e insalubres..." (In: SPIX e VON MARTIUS. Viagem pelo Brasil 1817-1820, Editora Itatiaia, 1981. v.)

Viajante que era, Von Martius procurou descobrir os caminhos do Brasil de muitos rios e poucas estradas naquela época, mesmo sem poder percorrer todos. Investigou ainda a ligação entre o rio Paraguai e o norte do Brasil, que já havia sido explorada, no século anterior, pelos rios Guaporé e Madeira ou pelos rios Arinos e Tapajós.

Cerca de cinco anos depois, essas viagens pelos rios brasileiros foram realizadas também pela expedição Langsdorff, chefiada pelo médico e naturalista Georg Heinrich von Langsdorff (1773-1852), cônsul-geral da Rússia no Rio de Janeiro desde 1813. Entre 1825 e 1829, acompanhado pelos artistas franceses Hercule Florence (1804-1879) e Aimé-Adrien Taunay (1803-1828), ele fez por vias fluviais o percurso entre Porto Feliz e Cuiabá e seguiu de lá até Belém do Pará, percorrendo cerca de 17 mil quilômetros. Quando chegaram a Cuiabá, Hercule Florence escreveu em seu diário Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas pelas Províncias Brasileiras de São Paulo, Mato Grosso e Grão-Pará (1825-1829), em 30 de janeiro de 1827: "Surge enfim aos nossos olhos, em 30, o tão desejado porto de Cuiabá (...) Raras pessoas transitam pelas ruas. Não é de se admirar: a cidade rodeia-se de infindáveis sertões". O grupo permanece cerca de um ano em Cuiabá e depois se divide por diferentes rotas para se reencontrar em Belém do Pará. Aimé-Adrien Taunay morre afogado no rio Guaporé em janeiro de 1828.