Não há um consenso entre os historiadores sobre o número de indígenas que habitavam o território brasileiro antes da chegada dos europeus na América. Alguns falam em 8 milhões de pessoas, outros em 40 milhões. No entanto, todos concordam que os povos originários foram dizimados: segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil tem hoje 900 mil indígenas.

Alguns fatores contribuíram drasticamente para o genocídio da população indígena, como as doenças que desembarcaram por aqui junto com os europeus no século XVI. O botânico alemão Carl Friedrich Philipp von Martius, estudioso das línguas indígenas brasileiras e autor de inúmeros registros etnográficos, foi também um dos pioneiros no estudo das doenças e da medicina dos nativos. Em Natureza, doenças, medicina e remédios dos índios brasileiros (1844) ele apontou que a varíola e o sarampo tornaram-se umas das doenças “de que mais morriam os índios”.

Iuri

A escravidão também foi responsável pelo aniquilamento dos povos indígenas. Com a ocupação do território brasileiro a partir do Tratado de Tordesilhas, um sistema produtivo passou a ser implementado e a solução encontrada pelos europeus para explorar o pau-brasil, as especiarias e depois o açúcar, foi escravizar a população nativa. Apesar de a Igreja Católica ser contra o trabalho forçado dos índios, a catequese e a civilização eram, para os europeus, os princípios centrais da colonização e contribuíram imensamente para a morte de milhares de pessoas. Separados entre civilizados e contrários à fé, grupos indígenas eram incentivados a entrar em guerras que terminavam ou em morte ou em escravidão. Sobre essa luta entre os povos indígenas, o artista francês Jean-Baptiste Debret anotou em Voyage pittoresque et historique au brésil [Viagem pitoresca e histórica ao Brasil] "Observa-se na província de São Paulo, Comarca de Curitiba, as aldeias de Itapeva e Curros, cuja população inteira se compõe de caçadores indígenas, empregados pelo governo brasileiro para lutar contra os selvagens e os expulsar pouco a pouco dos locais próximos às terras por onde os cultivos começam a avançar. (...) Cada ano, numa certa época, o governo lhes dá munições para a campanha; uma vez em marcha, eles não retornam antes de haver esgotado suas provisões de guerra; então, repousam até a campanha seguinte. Durante este intervalo eles cultivam suas terras e servem de guia aos viajantes estrangeiros”.

Sauvages civilisés soldats indiens de la province de la Coritiba, ramenant des sauvages prisonnières

A partir do século XVII, o tráfico negreiro mostrou-se um mercado altamente lucrativo para os portugueses. O que fez com que, aos poucos, o trabalho do escravizado africano passasse a predominar nas lavouras. Mas o extermínio indígena continuou na guerra pela ocupação de terras e em nome de um avanço econômico que atravessou todos os ciclos produtivos do Brasil - a expansão cafeeira, a borracha, o cacau, a mineração, a agropecuária. 

As diversas teorias raciais que ganharam força no século XIX só acentuaram a perseguição às populações indígenas, que eram interpretadas pelos Europeus como um obstáculo para a prosperidade do Brasil. Em 1840, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), criado no Segundo Império com o objetivo de incentivar a criação de uma identidade cultural, social e política brasileira, lançou um concurso para selecionar a melhor proposta para uma História do Brasil. O vencedor, Von Martius, vinculava o desenvolvimento do país ao aperfeiçoamento das três raças - o branco, o índio e o negro - cada uma com seu papel: o branco era o agente civilizador que deveria ajudar o índio a resgatar sua dignidade original, enquanto o negro era visto como um empecilho ao progresso.

Rencontre d'indiens avec des voyageurs européens.

Essa ideia do homem branco “ajudar” o índio no processo civilizatório foi a base para a criação, em 1910, do Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais (SPILTN). Seu objetivo era proteger e integrar índios, além de fundar colônias agrícolas com a mão de obra encontrada nas frentes de expansão para o interior, realizadas em nome do avanço da civilização. De acordo com o site Povos Indígenas no Brasil, do Instituto Socioambiental, “na base da unificação destas duas funções estava a ideia de que o índio era um ser em estado transitório. Seu destino seria tornar-se trabalhador rural ou proletário urbano”. Anos depois, o SPI foi dissociado da Localização de Trabalhadores Nacionais, mas ainda se baseava na premissa da integração pacífica dos índios. A partir dos anos 1940, após a instituição do Conselho Nacional de Proteção aos Índios (CNPI), antropólogos como Heloísa Alberto Torres, Darcy Ribeiro, Roberto Cardoso de Oliveira e Eduardo Galvão passaram a atuar na formulação das políticas indigenistas brasileiras. Mesmo assim, a participação de militares e trabalhadores rurais despreparados acabou por fazer da atuação do órgão uma política pública desastrosa: casos de fome, doenças, assassinatos e escravização eram permanentemente denunciados. Em 1960, funcionários do SPI participaram de um terrível episódio: no Massacre do Paralelo 11, cerca de 3500 indígenas da etnia Cinta Larga foram assassinados por envenenamento proposital com arsênico. Em 1967, em meio a essa crise institucional e à ditadura, SPI e CNPI foram extintos e substituídos pela Fundação Nacional do Índio (Funai).

No último ano, o governo federal se posicionou, mais de uma vez, contra a demarcação de terras indígenas. Também adotou políticas de enfraquecimento dos órgãos de proteção aos indígenas e ao meio ambiente. Por duas vezes, foram decretadas medidas provisórias (MPs) que transferiram a demarcação de terras da Funai para o Ministério da Agricultura. As MPs foram barradas no Congresso e no STF, mas, segundo o relatório do Cimi, o discurso governamental impulsionou o número de invasões. Entre janeiro e setembro de 2019, 160 casos de invasões em terras indígenas/exploração ilegal foram registrados. Em 2009, foram 43 ocorrências durante todo o ano. Também aumentou o número de assassinatos de lideranças indígenas que atuam como guardiãs da floresta. 

Mais de 500 anos não foram suficientes para brecar o genocídio indígena. Ao que tudo indica, essa guerra, uma das mais longas que o Brasil enfrenta, está longe de terminar.