Dados divulgados recentemente pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram a escalada no desflorestamento da Amazônia. Em junho de 2019, 920,4 km² de floresta amazônica foram derrubados – território equivalente à área urbana da cidade de São Paulo. Se olharmos para alguns estados isoladamente, os números são ainda mais alarmantes: no Maranhão 75% da floresta amazônica já foi desmatada, de acordo com pesquisa publicada em 2017 na revista científica Land Use Policy. 

Diante dessa triste realidade, a equipe da Brasiliana Iconográfica selecionou algumas obras do italiano Joseph Léon Righini – ou Leone Righini, como é mais conhecido –, um dos poucos artistas estrangeiros que, durante o século XIX, viveram na região Norte do Brasil e escolheram a selva amazônica como tema privilegiado para suas obras.

Considerado como um dos viajantes tardios - já que veio ao Brasil somente na segunda metade do século - de maior talento, Righini nasceu em Turim, na Itália, em 1820. Estudou na Academia de Belas Artes da cidade, onde foi aluno do pintor franco-italiano Lorenzo Pécheux. Entre 1844 e 1855, expôs na Promotrice de Belle Arti. Chegou ao Brasil por volta de 1856, desembarcando no Recife como cenógrafo da companhia de ópera italiana de José Ramonda. Passou por Salvador, Rio de Janeiro, São Luís e Belém do Pará, cidade que escolheu para viver. 

Vista de São Luis do Maranhão (atribuído)

Segundo Aldrin Moura de Figueiredo, pesquisador e professor da Faculdade de História da Universidade Federal do Pará (UFPA), Righini foi um intelectual de destaque na cena das artes na Amazônia oitocentista. Em 1867, junto com o tipógrafo e gravador alemão Johann Karl Wiegandt publicou a série de litografias Panorama do Pará em 12 Vistas

A contemplação da paisagem é uma das características mais marcantes de sua obra. No entanto, a variedade de espécies vegetais, os contrastes e as formas inusitadas da vegetacão presentes em seus registros resultam em paisagens incomuns não só pelas informações exóticas que apresentam – a raízes de uma árvore, uma habitação indígena ou uma casinha de sapê –, mas por combinar recursos dramáticos, marca de um artista que foi também cenógrafo. “Suas paisagens são como cenários para uma ação que lhe é exterior. Ao contrário da maioria dos artistas viajantes, Righini não coloca no interior da pintura um espectador guia para a nossa percepção. Inanimadas, imóveis, horizontais e iluminadas pela frente, elas poderiam perfeitamente ser panos de fundo para uma ópera ou apresentação teatral”, analisa Vera Beatriz Siqueira em Coleção Brasiliana – Fundação Estudar. 

Sítio Sossego, São Luís, Maranhão (atribuído)

Às cenas de caráter fortemente cenográfico soma-se a preocupação em registrar informações mais precisas, como vemos em Vista panorâmica da baía de Belém, na qual o céu nublado anuncia um dos apectos mais marcantes do clima da capital amazônica, as chuvas equatoriais.

Vista panorâmica da baía de Belém

A vida e a obra de Righini têm sido mais pesquisadas nos últimos anos. Para se ter uma ideia, somente em 2000, alguns de seus quadros foram reunidos pela primeira vez no Brasil para a exposição O Olhar Distante, na Bienal de São Paulo. Seu testemunho da exuberância amazônica é, sem dúvida, essencial para o estudo da fauna e da flora da região que, a cada governo – em especial nos últimos meses –, tem pedido socorro.