Com a proclamação da Independência, em 1822, as relações diplomáticas – que já tinham se intensificado depois da abertura dos portos, em 1808 - ganharam mais relevância. O governo brasileiro precisava do reconhecimento de outras nações para garantir autonomia política e financeira e negociar tratados de comércio, investimentos e empréstimos. Ao mesmo tempo em que espalhou representantes brasileiros ao redor do mundo, recebeu centenas de estrangeiros, principalmente no Rio de Janeiro, então capital do Império.

Vindos de diferentes países, alguns desses diplomatas eram desenhistas amadores que, assim como os cientistas naturalistas ou os artistas viajantes que desembarcaram no Brasil ao longo do século XIX, contribuíram para a criação de uma imagem brasileira para as demais nações do mundo. Eram, na maioria das vezes, homens cultos sem formação em belas artes, mas com domínio do desenho. Para documentar o que viam, registravam cenas urbanas, paisagens, edifícios, costumes e festejos dos lugares por onde passavam.

Entre os encarregados de negócios que atuaram no Brasil nesse período, vale a pena destacar os de origem inglesa, que mais comumente deixaram registros iconográficos de sua passagem pelo país. É o caso, por exemplo, de William Gore Ouseley, que chegou por aqui em 1823, como secretário comercial da delegação britânica e, anos depois, permaneceu como encarregado de negócios do país no Brasil. Filho de um diplomata orientalista, Ouseley estudou em Paris, na França, e em Leiden, na Holanda. Registrou em aquarelas vários aspectos da paisagem brasileira, principalmente do Rio e da Bahia, e de outros países das Américas onde trabalhou, como Estados Unidos, Argentina e Costa Rica. Depois de voltar para Londres, publicou, em 1852, o álbum Views in South America from original drawings made in Brazil, the River Plate, the Parana, etc, com desenhos seus gravados por J. Needham. Algumas dessas imagens integram a Brasiliana Iconográfica.

Também foram as relações políticas e econômicas entre nações que fizeram, por exemplo, com que Henry Chamberlain desembarcasse no Rio de Janeiro, em 1819. O militar inglês, que era também desenhista e pintor, era filho do cônsul-geral da Inglaterra que veio ao Brasil para tratar das transações comerciais entre os países. Chamberlain ficou no Brasil apenas um ano. Pouco depois de retornar para Londres, publicou, em 1822, o álbum Views and Costumes of the City and Neighbourhood of Rio de Janeiro, com 36 gravuras em água-tinta feitas a com base em desenhos seus. Muitos deles, você pode ver na Brasiliana Iconográfica.

M. Chamberlains House. Catete. Rio de Janeiro.

Já o alemão Karl Wilhelm von Theremin viveu na Antuérpia e em Leuven, na Bélgica, antes de se instalar no Brasil definitivamente em 1820, como cônsul-geral da Prússia - ele também tinha feito uma breve passagem pelo país, em 1817, para prospectar negócios. Theremin registrou em desenhos e aquarelas algumas das construções públicas cariocas mais importantes da época, como o Passeio Público, o Aqueduto, a Igreja de Nossa Senhora da Glória do Outeiro e o Teatro Imperial. Depois de voltar para a Europa, em 1835, publicou o álbum Saudades do Rio de Janeiro, com seis gravuras, todas presentes neste portal. Este álbum, publicado sem texto, foi dedicado ao imperador d. Pedro II.

A Bélgica, país mais jovem que o Brasil, enviou seu primeiro representante diplomático ao Rio de Janeiro em 1834. Benjamin Mary – cujo trabalho foi apresentado neste artigo da Brasiliana Iconográfica – veio com a missão principal de negociar um tratado de comércio entre os dois países. Produziu mais de 300 desenhos enquanto esteve no Brasil, entre 1834 e 1838, nos quais priorizou registrar os diferentes aspectos da flora nacional. Embora produzisse esses registros como recordações de sua passagem pelo país – como fez mais tarde quando serviu no Oriente Médio –, os desenhos botânicos de Mary eram tão apreciados que foram utilizados para ilustrar livros científicos sobre a flora brasileira.

Prospectus e Jugo Serra D’Estrella in Sinum Sebastianopolitanum

Por fim, Marguerite Tollemache, uma das poucas artistas viajantes mulheres do século XIX de que se tem registro, também desenhou paisagens brasileiras durante a viagem que fez ao país acompanhando o marido, William Augustus Tollemache, que, tudo indica, chegou ao Rio de Janeiro para uma missão diplomática, ligada à implantação de ferrovias.