Em 1859, d. Pedro II – acompanhado pela imperatriz d. Teresa Cristina e por uma comitiva – fez uma viagem às províncias do norte. Entre os objetivos do imperador, estava o de conhecer a região e o curso do rio São Francisco, que nasce na Serra da Canastra, em Minas Gerais, e deságua no oceano Atlântico, em Piaçabuçu, Alagoas. Importante via de transporte de mercadorias desde os tempos coloniais, o rio poderia cumprir a função de ligar as províncias do sul, especialmente Minas Gerais e Rio de Janeiro, às do norte, sobretudo Bahia e Pernambuco. 

A monumentalidade das diversas quedas d’água que formam a cachoeira de Paulo Afonso, no norte da Bahia, entusiasmaram o imperador, que escreveu em seu diário de viagem: “É belíssimo o ponto que se descobrem 7 cachoeiras, que se reúnem na grande que não se pode descobrir daí, e algumas grandes fervendo a água em caixão de encontro à montanha que parece querer subir por ela acima; o arco-íris produzido pela poeira da água completava esta cena majestosa”. A admiração foi tanta que, ao voltar da viagem, d. Pedro II pediu ao fotógrafo Auguste Stahl que registrasse a paisagem. A foto foi feita apenas um ano depois, em 1860. E foi a partir dela que o pintor alemão Germano Wahnschaffe produziu o óleo abaixo. 

Cachoeira de Paulo Afonso

Pouco se sabe sobre Wahnschaffe. Apenas que viveu no Brasil entre 1850 e 1870 e que foi sócio de Auguste Stahl no ateliê fotográfico Stahl & Wahnschaffe. No estúdio, ele provavelmente desempenhava a função de colorista de retratos, atividade comum na época. Historiadores afirmam que esta pintura de Wahnschaffe pode ter sido feita com o objetivo de oferecer à clientela do ateliê paisagens de grandes dimensões que transpusessem para telas a mesma cena da fotografia, feita a pedido do imperador. O óleo de Wahnschaffe não é idêntico à foto original. O artista alemão incluiu, por exemplo, uma palmeira à direita e um jovem branco que acompanha o rapaz negro que já existia na foto. A presença das figuras humanas, tanto na fotografia como na pintura, era um recurso frequente para dar ao observador uma referência da grandiosidade da paisagem representada.

Não foram apenas Stahl e Wahnschaffe que, no século XIX, registraram Paulo Afonso, uma das várias cachoeiras que existem no curso do São Francisco. O gosto de d. Pedro II pelo tema incentivou outros artistas a registrarem essa paisagem. Na fotografia, destaque para os trabalhos de Marc Ferrez e Augusto Riedel. Na literatura, Castro Alves escreveu "A Cachoeira de Paulo Afonso”, um longo poema narrativo. Anos antes, o botânico alemão Carl Friedrich Philipp von Martius havia passado pelo local e incluiu uma ilustração no seu Flora Brasiliensis.

Fluvii S. Francisci Cataracta, Dicta de Paulo Affonso

Sem dúvida, a paisagem registrada em foto, desenho, pintura ou texto do século XIX não é a mesma que se vê hoje. A construção de cinco usinas do Complexo Hidrelétrico de Paulo Afonso, inaugurado em 1955, foi um dos fatores que colaborou para a redução do volume de água da cachoeira, que só aumenta em época de chuvas. 

Transposição 

Estudos sobre o São Francisco já tinham sido realizados antes mesmo da viagem do imperador. Com o objetivo de amenizar os efeitos da seca, um dos primeiros projetos de transposição do rio, ou seja, de integrá-lo a rios temporários por meio de canais e de bombeamento artificial, foi elaborado em 1847 pelo intendente da comarca do Crato, no Ceará, Marcos Antônio de Macedo. A proposta não foi levada adiante, mas voltou a ser discutida pelo engenheiro alemão Henrique Guilherme Fernando Halfeld, que, a pedido d. Pedro II, fez um levantamento cartográfico do São Francisco no início dos anos 1850. O intuito do imperador era entender a navegabilidade do rio e ter mais informações para implantação de possíveis melhorias.  

Depois de percorrer mais de dois mil quilômetros ao longo do Velho Chico, Halfeld publicou mapas e anotações no Atlas e Relatorio Concernente a Exploração do Rio de S. Francisco, Desde a Cachoeira da Pirapora até ao Oceano Atlantico. No relato, o engenheiro assinalou as diferenças entre trechos do rio com relação à profundidade, largura e agitação das águas. Também sugeriu obras para torná-lo mais navegável, sobretudo para o trecho com muitas cachoeiras, entre elas, a de Paulo Afonso, que vai de Pão de Açúcar, em Alagoas, até Juazeiro, na Bahia. Halfel ainda propôs formas de desviar a água para o Ceará. As ideias, porém, não ganharam força, principalmente por conta das limitações técnicas da época. 

Outros estudos complementaram o trabalho de Halfeld: um de 1862, feito pelo astrônomo francês Emmanuel Liais, e outro no final do século, feito por Theodoro Sampaio, então integrante da Comissão Hidráulica do Império. Porém, apenas pequenas obras, como a retirada de pedras do leito do rio, foram implementadas nos anos 1800. 

A proposta de transpor as águas do São Francisco como solução para a seca foi retomada nos governos de Getúlio Vargas, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso. Só saiu do papel no governo Lula e causou muita polêmica por conta do altíssimo custo e impacto ambiental. Depois de mais de sete anos de atraso, a primeira parte da obra, o Eixo Leste, que beneficia as populações dos estados de Pernambuco e Paraíba, foi inaugurado em março de 2017. A entrega do Eixo Norte, que vai favorecer moradores do Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e Pernambuco, está prevista para o segundo semestre de 2018. Entretanto, ainda não há consenso se a transposição é, de fato, a melhor maneira de enfrentar a seca no sertão nordestino.