O século XIX, no Brasil, foi marcado por expedições estrangeiras que apresentaram o país ao mundo por meio dos registros de artistas viajantes como Thomas Ender, Johann Moritz Rugendas, príncipe Maximilian Wied-Neuwied, entre outros. Paisagem, flora, fauna, sociedade e escravidão eram temas deste inventário internacional que originou vasta gama de estudos científicos sobre o Brasil.

A partir da segunda metade do século, com a origem do Museu Nacional e do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, cresceu a demanda por uma produção de conhecimento científico exclusivamente brasileiro. Como resposta ao domínio dos europeus sobre temas nacionais, nasceu a Comissão Científica Exploratória das Províncias do Norte. Composta somente por brasileiros, com apoio de d. Pedro II, ela tinha o objetivo de explorar o Brasil, partindo dos locais menos conhecidos do país.

Destino: Ceará

O Ceará foi a primeira - e única - província a ser explorada pela expedição. Alguns historiadores atribuem essa escolha aos rumores de que, no local, havia minas de pedras preciosas não descobertas. Muitos aparatos foram providenciados para a viagem: uma biblioteca científica com cerca de dois mil livros e periódicos, máquina fotográfica (uma inovação tecnológica para a época), microscópios, telescópios, termômetros e barômetros.

Dividida em cinco seções - botânica, geológica e mineralógica, zoológica, astronômica e geográfica, e etnográfica - a Comissão teve como integrantes os principais cientistas e intelectuais da época, entre eles, o médico e naturalista Francisco Freire Alemão e o poeta Antônio Golçalves Dias. José Carlos dos Reis Carvalho, professor de desenho da Escola Marinha e ex-aluno de Jean-Baptiste Debret, foi escolhido como pintor oficial.

O grupo chegou em Fortaleza em fevereiro de 1859. Depois de seis meses na capital, partiu para o interior. No total, foram dois anos e cinco meses de pesquisas pelo sertão cearense.

As aquarelas de Reis Carvalho

Não se sabe ao certo a quantidade de registros feitos pelo pintor cearense ao longo da viagem. Neste portal, podem ser encontradas 54 aquarelas botânicas pertencentes ao arquivo da Biblioteca Nacional. Reis Carvalho trabalhou para todos os membros da Comissão, em especial para Francisco Freire Alemão, chefe do grupo, que tinha o objetivo de - inspirado em Carl Friedrich Philipp von Martius - mapear o reino vegetal segundo a biogeografia brasileira. O que chama a atenção nas obras de Reis Carvalho é a habilidade como ilustrador científico, seguindo as regras internacionais de representação de espécies vegetais, caracterizada pela ênfase no sistema reprodutor de cada planta. De acordo com a taxonomia criada pelo naturalista sueco Lineu, o sistema reprodutor era o fator que determinava a classificação da espécie no sistema botânico.

Os desenhos de Reis Carvalho na Comissão não se limitaram à flora cearense. Ele também registrou, entre outros temas, construções, paisagens, animais, cenas de costumes e de trabalho.

Resultados

O grupo voltou ao Rio de Janeiro em julho de 1861, com exceção de Gonçalves Dias, que continuou a viagem até a Amazônia em busca de povos indígenas menos afetados pelo contato com os brancos. Nenhuma outra cidade ou província foi explorada pela Comissão.

Apesar de os viajantes terem trazido do Ceará importante coleção zoológica, botânica e geológica, além de peças de artesanato e desenhos feitos por Reis Carvalho e Freire Alemão, as expectativas de parte da sociedade frente aos resultados da expedição não foram atendidas. Esperava-se que o grupo trouxesse boas notícias sobre a existência de minas intocadas, o que não aconteceu. Por conta disso e da quantidade de dinheiro gasto, a expedição ganhou o apelido pejorativo de Comissão das Borboletas.

Nenhuma grande publicação foi editada com os resultados da viagem, apenas relatórios, artigos e textos manuscritos. Alguns incidentes contribuíram para a falta de estudos mais profundos: o barco que, entre outras coisas, carregava as anotações de geologia e astronomia da Comissão afundou. Além disso, dois integrantes da expedição morreram logo depois da viagem: Manuel Freire Alemão, sobrinho de Francisco Freire Alemão, encarregado de publicar alguns textos, e o preparador e desenhista de aves Vila Real.

Os resultados da Comissão renderam uma mostra no Museu Nacional em setembro de 1861. No ano seguinte, os itens seguiram para a Exposição Universal de Londres. Algumas reuniões do Instituto Histórico tiveram aulas sobre os costumes e o tipo de fala dos cearenses e sobre os trabalhos dos indígenas encontrados por lá.