De acordo com o último Censo do IBGE, realizado em 2010, 274 línguas indígenas são faladas no Brasil. Calcula-se que antes da chegada dos europeus nas terras brasileiras existiam mais de mil dialetos indígenas. Essa diminuição pode ser atribuída ao extermínio que o povo indígena vem sofrendo ao longo dos séculos. Escravidão, exposição a doenças, guerras e a falta de demarcação de terras, tudo isso colabora com o desaparecimento de etnias inteiras. Junto com elas, desaparecem suas línguas, tradições e seus conhecimentos centenários.

A compreensão da cultura de um país passa pelo conhecimento de seus costumes e, sobretudo, de sua língua. Hoje, diante do aniquilamento de centenas de idiomas nativos, avaliar a extensão da contribuição indígena para a cultura brasileira se torna uma tarefa árdua. Uma série de registros e de estudos de viajantes, que visitaram o Brasil a partir do século XIX, ajudam a historiografia e a etnografia brasileira a reconstituir o cenário linguístico de 200 anos atrás. 

O botânico alemão Carl Friedrich Philipp von Martius foi um desses estrangeiros que buscaram o entendimento do povo nativo por meio da compreensão, entre outros fatores, de suas línguas. Na companhia do zoólogo Johann Baptist von Spix, Martius passou três anos, de 1817 a 1820, viajando pelo país. Além das anotações e dos desenhos sobre a flora e a paisagem brasileira - que resultaram em publicações como Flora Brasiliensis e Viagem pelo Brasil -, ele coletou informações sobre os povos indígenas e registrou vocábulos das diversas tribos e etnias. O material foi compilado nos Glossarios de Diversas Lingoas e Dialectos, que Fallao os Indios no Imperio do Brazil (1863) e na Contribuição para a etnografia e linguística da América, especialmente do Brasil (1867). Martius foi um dos primeiros estudiosos a pesquisar os dialetos nativos, e seus trabalhos nesse campo trazem informações importantes, como o único registro existente da língua Akroá Mirim. O alemão passou mais de 40 anos analisando as línguas indígenas, identificando a origem comum das palavras e organizando os povos em função dos grupos linguísticos e do espaço geográfico que ocupavam. Além disso, criou quadros comparativos de expressões em tupi e seus sinônimos em outros dialetos.

Além de Martius e Spix, outros viajantes alemães vieram ao Brasil para realizar expedições científicas. À medida que se encontravam com grupos indígenas, registravam os vocabulários e publicavam suas análises em trabalhos fundamentais para pesquisas etnográficas e linguísticas. Entre eles estão Karl von den Steinen, pioneiro na investigação científica dos povos indígenas da América do Sul; os etnólogos Theodor Koch-Grünberg, Paul Ehrenreich, Max Scmidt, e Curt Nimuendajú, que se naturalizou brasileiro e substituiu seu sobrenome alemão (Unkel) pelo que lhe foi dado pelos Apapokúva. Também a ornitóloga Emilie Snethlage e o naturalista Maximiliano, príncipe de Wied Neuwied, autor de um livro de viagem ao Brasil, cujas ilustrações você pode consultar aqui no portal.

Les Puris dans leurs forêts