Salvador foi fundada por Tomé de Sousa no dia 29 de março de 1549 para ser a capital do Brasil. Por ser o principal porto de escoamento da produção de cana-de-açucar, a cidade protagonizou a cena política e econômica do país até o início da segunda metade do século XVIII, período em que a sede do vice-reinado foi transferida para o Rio de Janeiro, devido às descobertas de ouro na região de Minas Gerais.

O Porto de Salvador foi o mais movimentado do Brasil até meados do século XIX. Por ele, eram exportados açucar, tabaco, café, algodão, couro, fumo e diamante, e itens como tecidos, ferramentas, especiarias, vinho e bacalhau eram importados. A partir de 1580, o porto da cidade também recebeu centenas de milhares de negros escravizados para trabalharem em lavouras de cana. No início do século XIX, dois quintos da população soteropolitana era de origem africana. Eram pessoas trazidas do interior de Angola, Congo, golfo do Benim (em maior quantidade) e costa da Guiné, falantes de iorubá, gbe, ewê, fon, hauçá, entre outras línguas. Cultura, religião e costumes dessa grande população africana tiveram papel decisivo na composição sociocultural de Salvador. Foi a partir da chegada dos escravizados que a culinária local passou a adotar azeite de dendê, pimenta, coco e amendoim, ingredientes característicos da cozinha baiana. A capoeira, o batuque, a dança e a música africana marcaram profundamente a cultura local. O cristianismo deixou de ser a única religião praticada no Brasil e passou a dividir espaço com crenças africanas de todo tipo. Ainda que a prática de outras religiões sofresse repressão das autoridades, divindades africanas continuaram a ser adoradas e homenageadas ao lado, muitas vezes, de santos católicos.

A cidade também contava com um grande número de africanos muçulmanos. Uma dentre as muitas revoltas encabeçadas por negros escravizados no século XIX foi a Revolta dos Malês, nome pelo qual ficaram conhecidos os africanos muçulmanos na Bahia. Os insurgentes lutavam com túnicas brancas usadas pelos adeptos do islamismo - chamados abadás - e levavam junto ao corpo amuletos com mensagens do Alcorão. Alguns historiadores defendem que, apesar da grande quantidade de representantes no Brasil, principlamente na Bahia, o islamismo perdeu a força por causa da redução de líderes muçulmanos provocada pela proíbição do comércio de escravos em 1850 e também pelo fato de que as religiões politeístas africanas tinham - e têm - convivência mais harmônica com o monoteísmo cristão do que com o islâmico.

San-Salvador

Na gravura acima, intitulada San-Salvador, do alemão Johann Moritz Rugendas, um grupo de negros escravizados joga capoeira, um dos casais aparentemente namora e uma ambulante, conhecida como negra de tabuleiro, carrega sua mercadoria na cabeça. Sabe-se que Rugendas passou rapidamente por Salvador em 1825 e, nos poucos trabalhos realizados na cidade, deu mais atenção à vida e aos costumes dos africanos escravizados. Na obra, em segundo plano, o pintor registrou a enorme Baía de Todos os Santos e, ao fundo, é possível ver a divisão entre a cidade alta e a cidade baixa, desde a ponta do Cabo de Santo Antônio da Barra até o Monte Serrat, na região do Bonfim.

Em seu livro Voyage Pittoresque et Historique au Brésil [Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil], Rugendas faz o seguinte retrato da cidade: "Os edifícios, principalmente da cidade alta, cercam-se de bosques e de jardins, e vistos do porto apresentam um aspecto bastante pitoresco. Na parte mais antiga, as casas são construídas à moda europeia: são na maioria muito altas, providas de sacadas e com telhado chato. [...] As ruas são estreitas e irregulares, porque o pequeno espaço entre os rochedos e o mar não permitia abri-las com maior largura. Três ruas ascendentes, e fortemente inclinadas, unem a cidade comercial aos bairros e arrabaldes. Nestes, as ruas são mais largas, mais limpas e mais bem calçadas. [...] Na cidade baixa só existem comerciantes. Os mais ricos, principalmente os estrangeiros, possuem casas de campo ou chácaras nas colinas, fora do centro da cidade. O mercado de escravos, a Bolsa, as lojas dos negociantes, o arsenal e os estaleiros também se encontram na cidade baixa".

Essa divisão - física e social - entre as cidades baixa e alta registrada pelo artista era muito evidente na Salvador do início do século XIX. Por conta do porto, a cidade baixa tinha o comércio bem desenvolvido e, até 1840, resumia-se a uma única rua paralela à praia. Muitos marinheiros brasileiros e estrangeiros circulavam por ali, assim como costureiras, quitandeiras, ambulantes e escravos. Entre o mar e a montanham instalaram-se casas com até quatro andares: as lojas geralmente ficavam no térreo, e as famílias se instalavam nos andares superiores, deixando o último piso para os escravizados. Essa parte de Salvador foi urbanizada segundo o modelo da Cidade Baixa de Lisboa, com seu casario pombalino, como pode ser visto na imagem abaixo.

Vista da cidade de Salvador

Os mais ricos preferiam morar na cidade alta, onde se instalou o governador, a câmara dos vereadores, a catedral, o arcebispado. Como descrito no relato de Rugendas, na cidade alta as ruas eram mais largas, mais limpas, havia praças e, em 1818, foi construído o primeiro jardim público com vista para a baía. No desesenho abaixo, o inglês Charles Landseer traçou um panorama do Bonfim visto de um desses jardins. No trajeto que o artista percorreu até o norte do país entre 1825 e 1826, ele registrou cenários e moradores de todas as cidade por onde passou, entre elas Salvador, onde desenhou algumas vistas e numerosos escravos.

View of bonfim from public gardens at Bahia

Por causa de sua topografia, Salvador tinha - e ainda tem - muitas ladeiras e morros. O transporte entre as cidades alta e baixa era feito por negros escravizados ou por traçao animal, mas os caminhos precários e deslizantes dificultavam o transporte de material mais pesado. Por esse motivo, a cidade contou com muitos guindastes para transportar mercadorias. Com o tempo, o crescimento não planejado da cidade dividida em dois planos tornou-se um problema e por muitos anos foram registrados uma série de desmoronamentos e desabamentos. Somente a partir de 1850 é que Salvador foi submetida a um processo mais ordenado de expansão e articulação. O elevador Lacerda, por exemplo, foi construído em 1873. Bondes elétricos, ônibus e automóveis surgiram apenas a partir de 1900.