Depois da proclamação da Independência, em 1822, d. Pedro precisou do reconhecimento internacional para garantir a estabilização do império. Isso por que d. João poderia, estimulado pela França e pela Áustria, querer reafirmar a soberania portuguesa sobre o Brasil. Era preciso também abafar reivindicações internas de grupos legalistas, separatistas e republicanos, que questionavam a legitimidade do novo governo. E do ponto de vista econômico, o Brasil precisava se estabelecer no mercado fincanceiro internacional.

Para mediar a negociação do reconhecimento entre Portugal e Brasil, d. Pedro contou com o apoio da Grã-Bretanha, interessada em estreitar os laços com o novo imperador. Isso asseguraria sua influência e daria oportunidade ao governo britânico de renovar o tratado comercial de 1810. Este previa taxas favoráveis à entrada de suas mercadorias e definia que britânicos incriminados no Brasil seriam julgados por autoridades e leis inglesas. Por fim, a Inglaterra via a oportunidade de avançar para o fim do tráfico de escravos.

Diante desse interesse mútuo, uma missão diplomática, liderada pelo embaixador inglês Charles Stuart, partiu da Grã-Bretanha em direção a Lisboa em março de 1825. Ele tinha o intuito de convencer d. João sobre a independência brasileira e reforçar os compromissos britânicos com Portugal. Concluída essa primeira tarefa, a comitiva - formada por Stuart, um secretário, dois oficiais do exército, dois médicos, o artista Charles Landseer e o botânico William John Burchell - seguiu para o Rio de Janeiro, fazendo escala na Ilha da Madeira e em Tenerife.

O HMS Wellesley, uma das melhores embarcações da marinha real britânica, chegou ao Rio de Janeiro em julho do mesmo ano. A partir daí, o jovem Landseer, com 25 anos, começou a registrar as paisagens naturais cariocas e cenas de escravidão. O artista inglês ficou no Rio de Janeiro por quatro meses e produziu mais de uma centena de desenhos e aquarelas.

The Corcovado from opposite side of Botafogo Bay
Vista do Pão de Açúcar tomada da Estrada do Silvestre (atribuído)

Entre os moradores do Rio de Janeiro, quase todos os registrados por Landseer eram negros escravizados, com algumas exceções, como por exemplo, d. Pedro e a imperatriz Leopoldina.

The Empress Leopoldina

Depois do Rio de Janeiro, os integrantes da Missão Stuart - com exceção do botânico Burchell - viajaram para outros estados brasileiros, como Bahia (estiveram por lá duas vezes), Pernambuco, Santa Catarina, Espírito Santo e São Paulo. Apesar de ter registrado em desenhos ou aquarelas todas as cidades por onde passou, Charles Landseer não deixou nenhum relato por escrito. Ao longo dos 18 meses da missão, o artista produziu 306 desenhos (a lápis, bico de pena e carvão) e aquarelas, dos quais 143 podem ser encontrados nesse portal.

Indian of Espirito Santo

A comitiva deixou o Brasil em maio de 1826, depois de Charles Stuart ser deposto do cargo de embaixador por não conseguir negociar com d. Pedro tudo como o secretário britânico George Canning gostaria. A abolição do tráfico negreiro, exigência em contrapartida ao reconhecimento do novo império, ganhou um prazo de quatro anos no acordo firmado por Stuart. E o novo tratado comercial não previa a manutenção dos direitos extraterritoriais dos britânicos no Brasil. Somente no final de 1826 é que Robert Gordon, embaixador britânico enviado ao Rio de Janeiro no lugar de Stuart, conseguiu renegociar os assuntos. Um novo acordo comercial manteve os juízes conservadores para lidar com crimes que envolvessem britânicos residentes no Brasil. Com relação ao tráfico negreiro, a mudança não foi efetiva. Em novembro de 1826, a prática foi considerada ilegal, mas a lei só entraria em vigor após a retificação do documento (feita em 1827). Isso fez com que, até 1830, os traficantes tivessem tempo suficiente para antecipar a vinda dos africanos escravizados, e a média de 40 mil escravos que chegavam no Brasil por ano subiu para 60 mil.

Na volta para a Europa, antes de encerrar as atividades, a comitiva de Charles Stuart recebeu mais uma missão diplomática. Com a morte de d. João e a necessidade de um sucessor para o trono português, a pedido de d. Pedro, Stuart seguiu para Portugal como representante do Brasil. Seu objetivo era levar à regente Isabel Maria os decretos de abdicação do trono e a carta constitucional brasileira. Só depois disso e de fazer uma escala em Açores os integrantes da missão voltaram definitivamente para a Grã-Bretanha.

Os desenhos feitos por Landseer durante a missão ficaram com Charles Stuart, guardados em seu castelo em Highcliffe, na costa sul da Inglaterra. No final de 1924, quase 100 anos depois, o historiador brasileiro Alberto do Rêgo Rangel teve acesso aos documentos do embaixador e encontrou o então desconhecido caderno Voyage to the Brazils 1825-1826 [Viagem aos Brasis 1825-1826]. Além dos desenhos de Landseer, o caderno trazia alguns trabalhos de William Burchell, do artista britânico amador Henry Chamberlain, e algumas aquarelas atribuídas a Jean-Baptiste Debret. Depois de ser comprado, em 1926, pelo colecionador Guilherme Guinle, o conjunto chamado de Highcliffe Album foi colocado em leilão na Christie's em 1999, quando adquirido pelo Instituto Moreira Salles