Por ocasião dos 200 anos da chegada de d. Leopoldina (1797-1826) ao Brasil, completados no dia 5 de novembro de 2017, foram realizados vários eventos comemorativos no país. Entre eles, o lançamento do livro D. Leopoldina - A História Não Contada (Editora Leya), de Paulo Rezzutti; o espetáculo teatral Leopoldina, independência e morte [estudo#2], realizado pelo Museu Paulista da Universidade de São Paulo (USP) e pelo Sesc Ipiranga; e a exposição Leopoldina, Princesa da Independência, das Artes e das Ciências, no Museu de Arte do Rio de Janeiro. O papel da Imperatriz brasileira tem sido reavaliado pela historiografia recente. Este artigo encerra o calendário de comemorações. 

[...] Nem pena nem pincel podem descrever a primeira impressão que o paradisíaco Brasil causa a qualquer estrangeiro [...] na entrada da baía há três belos fortes, além de vários grupos de ilhas, ao longe vislumbram-se altíssimas montanhas cobertas de palmeiras e muitas outras espécies de árvores.

O texto, retirado do diário da arquiduquesa austríaca Leopoldina Carolina Josefa, resume suas sensações ao avistar o Brasil pela primeira vez. Chegou ao Rio de Janeiro para se encontrar com o marido, d. Pedro (1798-1834), com quem tinha se casado por procuração na Áustria, meses antes. O casamento foi parte de um acordo diplomático entre as casas reais da Áustria e de Portugal. 

Nesse trecho do diário, Leopoldina demonstra características marcantes: inteligência e erudição. A arquiduquesa tinha conhecimentos em botânica e falava muitas línguas (inglês, francês, alemão e português, aprendido antes de chegar ao Brasil). Um de seus autores prediletos era o alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), que conheceu por intermédio de sua madrasta, Maria Ludovica, amiga do escritor. Estudou mineralogia e cogitou ser a mineralogista da corte austríaca caso não se casasse.

Leopoldina era também influente, pois integrava a cúpula do poder europeu. Era uma Habsburgo, família tradicional e poderosa da Europa por muitos séculos. Maria Antonieta (1755-1793), rainha da França guilhotinada na Revolução Francesa, era sua tia-avó. Napoleão Bonaparte (1769-1821) foi seu cunhado, casado com sua irmã e confidente, Maria Luisa (1791-1847), com quem teve um filho.

Árvore genealógica de Dona Leopoldina (atribuído)

O registro da viagem ao Brasil

Feyerliche Ausschiffung der Prinzessin Leopoldina von João VI am 6 November 1817

A imagem acima intitulada O Festivo Desembarque da Princesa Leopoldina no Dia 6 de novembro de 1817 foi pintada pelo jovem Franz Joseph Frühbeck (1795-?). Comerciante e artista amador, ele conseguiu um lugar como auxiliar de bibliotecário na comitiva pessoal que acompanhou Leopoldina ao Brasil. Essa comitiva compreendia ainda um professor de pintura, o médico pessoal da arquiduquesa e um mineralogista, que se tornou seu bibliotecário.

Leopoldina chegou ao Brasil pela nau d. João VI, acompanhada por outras duas fragatas: Augusta e São Sebastião. A ideia era aproveitar a viagem da arquiduquesa para a realização de uma missão austríaca, já detalhada neste artigo anterior. 

Frühbeck documentou a viagem desde o embarque em Livorno, na Itália, e registrou cenas cotidianas da vida a bordo.

Mittagsmahl der Matrasen / tra. Cacadu. Tra

Na imagem abaixo vemos no convés, à direita, um soldado montando guarda na entrada dos aposentos privados da princesa e de suas damas, d. Leopoldina está no segundo andar, de perfil.

Hintertheilt des Licnienschiffes João des 6ten

O casamento com d. Pedro

O casamento de Leopoldina com d. Pedro foi um acordo conveniente para Portugal e Áustria. Para Portugal, porque abria uma nova frente de comércio com o Brasil sem ter que passar pelos ingleses. Para a Áustria, porque Francisco I (1768-1835) lutava por uma retomada do crescimento econômico, abalado pela guerra contra Napoleão. Em nove anos de união, d. Pedro e d. Leopoldina tiveram sete filhos (ela engravidou nove vezes, mas sofreu dois abortos): Maria da Glória (1819-1853), futura d. Maria II, rainha de Portugal; Miguel (1820), falecido logo após nascer; João Carlos (1821-1822); Januária (1822-1897), futura condessa de Áquila; Paula Mariana (1823-1833), Francisca Carolina (1824-1898), futura princesa de Joinville, e Pedro Alcântara (1825-1891), futuro imperador d. Pedro II.

Leopoldina participou ativamente do dia a dia político de seu marido e foi entusiasta dos movimentos que visavam, primeiramente, a permanência do príncipe no Brasil, que resultou no Dia do Fico (9 de janeiro de 1822) e, depois, a Independência (7 de setembro de 1822). Sua influência política sobre d. Pedro foi diminuíndo à medida em que o relacionamento extraconjugal do príncipe com Domitila de Castro (1797-1867), a Marquesa de Santos, foi ficando mais sério. Até então, Leopoldina sabia dos casos do marido, porém, ao contrário dos outros, esse durou sete anos.

The Empress Leopoldina

A imperatriz ficou cada vez mais deprimida. Em 1826, sofrei com a morte do sogro, d. João VI (1767-1826), e com a partida da filha Maria da Glória, que se mudou para Portugal para assumir o reinado, uma vez que d. Pedro abdicou do trono português. Nesse mesmo ano, Leopoldina engravidou pela última vez. Em 2 de dezembro, teve um aborto e, nove dias depois, morreu por conta de uma infecção.

Catafalco per Fúnerale della Principessa Dª. Leopoldina