Manuel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879) participou intensamente dos eventos que marcaram o século XIX no país. Brasileiro, artista e pensador de destaque, foi discípulo querido do pintor Jean-Baptiste Debret (1768-1848) e formou-se na primeira turma da Academia Imperial de Belas Artes (Aiba).  

Sua obra visual é bastante diversificada: ao mesmo tempo em que pintou retratos e cenas históricas, registrou com argúcia a flora brasileira e fez caricaturas impiedosas de seus desafetos. Neste portal, um álbum pertencente ao acervo do Instituto Moreira Salles, com cartas, poemas, desenhos de viagem e paisagens, tipos humanos e estudos de cenas mitológicas feitos pelo artista pode ser visto na integra. Mais do que um skechtbook, acredita-se que tal conjunto, totalizado em 59 itens, tenha sido agrupado em diferentes momentos da vida de Araújo Porto-Alegre. Nele está registrada sua correspondência com pessoas ilustres da época, como o poeta português Almeida-Garrett (1799-1854) e contém ilustrações que mostram diversos pontos de interesse e experiências do artista, desde sua primeira viagem à Europa em companhia de Debret (entre 1831-1837), até suas investigações sobre a representação da Floresta Brasileira entre as décadas 1850-1860.

Sobre esse tema, Porto-Alegre debruçou-se amplamente. Questionava a capacidade de pintores estrangeiros de reproduzir com fidelidade a selva tropical. Alegava que esse tipo de registro precisava ser feito a partir de observações in loco, e não pautado por modelos europeus que frequentemente se valiam de um repertório imagético formado em outras partes do mundo, com uma mistura de elementos de diferentes regiões do planeta, resultando em uma paisagem pouco fiel a realidade tropical. Para isso, sugeria que seus alunos observassem a floresta e fossem a campo para vê-la com os próprios olhos. Essas ideias lhe trouxeram uma série de inimizades e o fizeram virar motivo de chacota no meio artístico brasileiro, repleto de pintores e aspirantes a pintores para os quais se embrenhar em uma selva não era uma atividade razoável. Porto-Alegre acabou se aproximando dos artistas que, motivados pelas concepções de representação propostas por Alexander von Humboldt (1769-1859) – o maior naturalista do período – retratavam a natureza com finalidades científicas, a serviço das missões que exploravam o Brasil.

Dos 11 desenhos do álbum que retratam florestas, dois merecem atenção especial. São estudos preliminares realizados por Porto-Alegre quando preparava a obra que mais tarde seria litografada por A. De Pinho para a publicação do álbum O Brasil Pitoresco e Monumental, do holandês Pieter Godfred Bertichen (1796-1866), em 1856. Um exemplar deste álbum, pertencente ao acervo do Itaú Cultural,  também pode ser visto, neste portal.

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